Sabrina Noivas 106 - I Married a Prince
Kathryn Jensen

Algumas regras existem para serem quebradas...Como poderia a bibliotecria de 1 pequena cidade, sempre com o nariz enfiado nos livros - no nas colunas sociais -,saber que o homem que a seduzira havia alguns anos era 1 prncipe? Ou que a criana nascida de seu romance era herdeira de 1 trono real? Tudo que Allison sabia era que o encanto sedutor daquele homem a transformara de menina em mulher...Incapaz de esquec-la, Jacob voltara para provar, pela ltima vez, a doura dos lbios de Allison. Porm, quando descobriu que tinha 1 filho, props-lhe casamento para salvar a famlia real de 1 escndalo. Jacob desconhecia que por lei no podia se casar com 1 plebia!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1999. Estado da Obra: Corrigida v
Gnero: Romance contemporneo

Srie Reino Elbia
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	I Married a Prince
Sabrina Noivas 106 -
Nobre Apaixonado	Dec-1997

2	The Earl Takes a Bride
????	Mar-2000

3	The Earl's Secret
Julia 1133 - O Segredo De Um Nobre	Jan-2001

4	The American Earl
????	Feb-2001

5	The Secret Prince
Harlequim Desejo 30 - O Prncipe Dos Mares	Mar-2002 


Nota para as leitoras:

Embora o pas de Elbia, seus habitantes e o prncipe Jacob sejam produto de minha imaginao fantasiosa, monarquias de verdade, castelos c prncipes charmosos existem em nosso inundo moderno. O prncipe herdeiro Alois de Liechtenstein  grande tenista e reside no lindo castelo Vaduz. O prncipe Albert de Mnaco que gosta de judo, esgrima e teatro, possui a reputao de ser um playboy encantador. Luxemburgo  o reino de Sua Alteza Real, prncipe Henri, um velejador fantico e amante da msica. Mora no castelo de Fischbach que  maravilhoso. O prncipe da Dinamarca, Frederick, adora esquiar e dirigir carros velozes, e cursou a Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Holanda, Espanha, Noruega, Blgica e Sucia tambm possuem seus magnficos prncipes. Todos so donos de grandes fortunas que iro compartilhar, um dia, com as felizardas que vierem a roubar seus coraes.








CAPITULO I

O tempo esgotava-se, e Jacob sabia disso. Existiam poucas coisas que seu dinheiro no pudesse adquirir no mundo todo, mas a felicidade era uma delas. Usara a fortuna dos von Austerand para satisfazer os prprios caprichos, desejos, necessidades reais e imaginrias. Agora, a diverso parecia estar chegando ao fim.
	Problemas  resmungou, amassando o bilhete e deixando-o cair no tombadilho. Um brilhante sol de setembro refulgia no cu sem nuvens, sobre a enseada onde, na noite anterior, ancorara o iate Rainha Elise.
	Ms notcias, Alteza Real?
s costas de Jacob, a voz tinha forte sotaque britnico.
	No podiam ser piores, Thomas.
	O rei teve outro ataque?
Jacob voltou-se para encarar seu guarda-costas que tambm desempenhava as funes de motorista, secretrio particular e, por iniciativa prpria, conselheiro. Thomas era, ainda, o mais ntimo e, segundo alguns, nico amigo do prncipe. A raiva fazia aumentar a dor de cabea de Jacob por conta da ressaca que o atormentava.
	Meu pai est gozando de perfeita sade, mais do que eu, no momento.
	Preparei um Bloody Mary, Alteza. Devo trazer?
	Pare com essa bobagem de "Alteza"! S diz isso quando h reprteres por perto ou est aborrecido comigo.
	Como quiser, senhor  disse Thomas com um leve sorriso.  Devo trazer a bebida?
	No.  Jacob balanou a cabea e gemeu.  Logo passar.  melhor trazer caf preto.
Quando Thomas retornou com uma caneca fumegante, Jacob bebeu e, de sbito, o mundo pareceu encaixar-se no lugar. Membros da tripulao passavam por eles, usando camisetas brancas e calas de brim. O luxuoso iate Rainha Elise fora um presente do pai a Jacob, quando fizera dezesseis anos, e era seu refgio predileto sempre que desejava isolar-se por uns tempos. Mas, naquela manh, parecia de pouca utilidade.
	Merece essa ressaca depois da noite de ontem  comentou Thomas com secura, enquanto fumava um charuto.
Jacob suspirou.
	Acho que-sim...
Afora seu pai e Frederick, o conselheiro do rei que acompanhava a famlia real antes mesmo do nascimento de Jacob, Thomas era o nico que no se intimidava com o dinheiro e ttulo de nobreza dos von Austerand.
O pai de Jacob, rei de Elbia, era muito teimoso e agora exigia que seu filho nico casasse no Natal. E isso s porque ele prprio, Karl von Austerand, fora forado a desposar-se antes dos trinta anos, assim como seus ancestrais. Por mais de quinhentos anos o principado de Elbia, pequeno pas europeu como Liechtenstein, seguira as leis de sucesso. Agora era a vez de Jacob que via um casamento poltico como uma idiotice medieval, um armadilha que sempre esperara ludibriar. Mas o momento chegara... e parecia no haver como escapar sem prejudicar sua herana.
Jacob debruou-se no parapeito do iate.
	O rei diz que tive muito tempo para escolher uma esposa adequada, Thomas. Aquela  fez um gesto para o bilhete que jogara no mar  era a mais recente lista de jovens candidatas  prxima rainha de Elbia.
Thomas aproximou-se do prncipe.
	Sabia que esse momento chegaria, Alteza. No  surpresa.
	Sim, mas sempre me pareceu to distante... at hoje.
	Como nico herdeiro do trono de Elbia,  sua obrigao providenciar um herdeiro  sentenciou Thomas, com voz suave.  Se a linhagem dos von Austerand terminar, seu pas desaparecer. Thomas sempre seria um sdito ingls, porm no deixava jamais de proteger a nao de seus patres, assim como eles prprios.
Jacob passou os dedos por entre os cabelos negros e brilhantes, e olhou para a praia. Sabia que aquilo que Thomas dissera era verdade. Sentia-se atormentado pela culpa por saber que seus desejos contrariavam a tradio.
Uma gaivota passou zunindo, e os pensamentos de Jacob pareciam acompanh-la. Ordenara que ancorassem o iate bem tarde, na noite anterior, ao sul de Long Island, depois de o ltimo convidado ter desembarcado. Algo o fizera voltar quele lugar. Alguma coisa o forara a desejar estar ali de novo, ao menos para ficar sozinho um pouco, admirando o sol nascer naquela curva conhecida de areia e pedras, chamada baa Nanticoke.
Um pouco de paz abateu-se sobre sua frustrao e raiva. Sentiu que relaxava e aspirou o ar marinho.
Ali a geografia era bem diferente de Elbia. O pequeno pas da Europa oriental sobrevivera s agresses da Alemanha durante as duas grandes guerras, e  intimidao da Rssia na guerra fria que se seguira.
Como Mnaco, Liechtenstein e alguns poucos pases modernos, Elbia permanecia uma monarquia, um anacronismo no mundo atual e tecnolgico. No dispunha de petrleo, minas de diamantes ou grandes indstrias. Suas fronteiras no incluam nem um porto livre nem acesso a outros pases ricos.
Mas possua lagos espetaculares, montanhas majestosas e castelos antigos de magnificncia sem igual. O turismo mantinha Elbia viva, porm, sem o charme da monarquia e o brilho dos vrias eventos anuais na capital e que atraam, todos os anos, milhares de visitantes, ficaria arruinada.
	O rei quer que eu volte e arrume uma noiva j  disse Jacob, apertando as tmporas com os dedos.  Aquele pedao de papel trazia sua escolha pessoal, selecionando dez candidatas.
	E?  perguntou Thomas, um tom divertido na voz. 
	No quero nenhuma delas!
	As jovens que seu pai mencionou, certamente, representam que existe de melhor. Sangue real... famlias ricas... semfalhas sociais... algumas so at bastante bonitas.
	Ento, case-se com uma delas!  Impaciente, Jacob colocou a caneca vazia sobre uma cadeira que fora ocupada por uma atriz de Nova York, na noite anterior, jovem, com longas pernas e um sorriso convidativo.  Deixam-me indiferente.
	Entretanto, voc mantm... digamos... vrios relacionamentos com essas damas.
	Dormi com dezenas de mulheres em quase todos os pases
do mundo  declarou Jacob sem entusiasmo.  Fazer amor com uma moa no quer dizer que se deseje viver com ela pelo resto da vida.
Thomas, com as faces rechonchudas e a barba bem aparada, colocou a mo no ombro do prncipe, comentando com delicadeza:
	Outros homens tiveram que fazer sacrifcios muito maiores por seus pases.
Jacob concordou com um gesto de cabea.
	No entenda mal, Thomas. Sempre soube qual era meu dever e pretendia cumpri-lo no momento certo. Mas agora que chegou a hora... no consigo! No sei o motivo, mas  assim.
 Jacob hesitou.  Certa vez houve algum... mas ela...
Os olhos de Thomas brilharam.
	Algum? Uma moa?
	Sim. Era especial.
O que ela representara naquele vero, dois anos antes? A garota americana com enormes olhos azuis e cabelos cor de champanhe que tocavam os ombros. -Fora doce, simples, adorvel... e Jacob ficara encantado. Nenhuma mulher o impressionara tanto nem voltara a impressionar depois dela.
Porm, tratava-se de uma plebeia e, alm do mais, uma americana, fato que, aos olhos do rei, seu pai, era ainda pior. Jacob soubera, mesmo quando estavam nos braos um do outro, que teria de deix-la. Fora o momento mais doloroso de sua vida, sair da cama onde estivera naquela noite, sem ao menos um adeus, sem lhe explicar quem era e o motivo pelo qual no poderiam ficar juntos.
Vivera em frangalhos durante vrias semanas, mas ento voltara para os estudos e tratara de concentrar-se. O tempo havia passado, e Jacob sobrevivera.
Mas seu relacionamento com as mulheres mudara muito, desde ento. J haviam se passado dois anos, mas nunca mais voltara a sentir, entre braos femininos, a doura e a total satisfao que experimentara com aquela moa.
Olhou de novo para a praia, luzindo ao sol de outono. As guas ainda estavam quentes para um mergulho, mas logo esfriariam com a chegada do inverno.
	Essa mulher  comeou Thomas com cuidado   o motivo pelo qual ancoramos aqui, ontem  noite, em vez de irmos para Greenwich?
Jacob baixou a cabea, em um gesto relutante, querendo dizer que sim, e sussurrou:
	Chamava-se Allison.
Nunca mais voltara a pronunciar aquele nome desde a noite em que a deixara, mas continuava a pensar nela com muita frequncia.
	No pode ser uma possvel esposa?  perguntou Thomas.
	De jeito nenhum!.  Jacob riu com amargura.  No tinha nem uma gota de sangue azul. Meu pai jamais permitiria tal casamento.
	Entendo.  Thomas suspirou.  Pretende voltar a v-la?
Jacob passeou o olhar pelos chals na beira da praia, comsuas fachadas brancas e janelas verdes.
	Sim  respondeu com firmeza.  Preciso v-la mais uma vez. Ento, irei tir-la da cabea e parar de compar-la com todas as outras mulheres que encontro. No  possvel que seja to... J nem sei o que ela era, pois estou obcecado pela imagem que criei.  Bateu com os punhos na amurada, de modo irritado.  Allison  um assunto que preciso resolver, Thomas.  s isso. Vou encontr-la... mora em Nanticoke. Quero v-la apenas mais uma vez, s para terminar com esse tormento.
	Quer dizer que pretende ter mais uma noite de amor?
	Sim, se for preciso, para ficar satisfeito. Ento, pensarei em Elbia e decidirei o que fazer.
No fora o pior dia de sua vida nem o melhor tampouco.
Quando Allison Collins sara para trabalhar naquela manh, o pequeno Cray estivera um tanto febril e tentara segur-la para que no sasse. A irm de Allison, Diane, estava muito ocupada com os prprios trs filhos, tentando fazer com que dois deles pegassem o nibus escolar, enquanto vestia o terceiro. Em poucos minutos, as outras trs crianas de quem cuidava todos os dias, chegariam, e a casa ficaria repleta. Tomar conta de um beb com febre era a ltima coisa que Diane precisava.
	Lamento  disse Allison.  No devia deixar Cray com voc to ocupada.
	No comece com sentimento de culpa outra vez  replicou Diane.   s um pouco de febre. Vou-lhe dar um analgsico infantil e estar timo daqui a dez minutos.
	Talvez fosse melhor no ir trabalhar e ficar em casa. 
Ao dizer aquilo, Allison achou a prpria ideia maravilhosa.
Sempre que deixava Cray, sentia-se muito infeliz. Desejava ficar o tempo todo com o menino, mas o que uma me solteira poderia fazer?
Tivera sorte por Diane aceitar t-lo em casa, junto com todas as outras crianas. A irm tomava conta dos pequenos durante todo o dia, e Allison tinha seu salrio de professora e bibliotecria que, em uma cidade to pequena quanto Nanticoke, no ajudava muito.
Seus pais haviam mudado para a Flrida havia cinco anos, deixando-lhe a casa da praia, o que fora uma bno. Ainda tinha que pagar os impostos pela propriedade, comida, roupa, contas do mdico e outras necessidades mas, de algum modo, conseguia economizar e pagar tudo. No ficava aborrecida, pois muitas famlias tinham que planejar muito bem os gastos para sobreviver. A nica coisa que a entristecia era no poder dedicar mais tempo ao pequeno Cray.
Cray era saudvel e esperto. Talvez por isso mesmo fosse to difcil deix-lo quando estava doente, pois ficava to cabisbaixo...
Por fim, desvencilhou-se dos dedinhos rechonchudos do filho e saiu correndo da cozinha, ouvindo seus gritos de protesto. Mordendo o lbio, entrou no pequeno carro, e partiu  toda velocidade.
Seus alunos do perodo da manh j a esperavam, sentados em crculo sobre o tapete. Leu os livros que trouxera com um falso entusiasmo, pois sentia-se cansada, passara a noite acordada por causa de Cray.
Depois que as aulas terminaram, comeou o trabalho na biblioteca. Era preciso catalogar os novos livros que haviam chegado.
s cinco horas, em geral, Allison estava exausta.
Naquela tarde, passou por Mriam, uma voluntria da escola, que comentou:
Parece uma sonmbula...
	S quero pegar meu filho, ir para casa e sentar na varanda, tomando ch gelado.
Allison disse aquelas palavras sem se deter no caminho, sentindo-se incapaz de parar para um simples bate-papo.
Descendo os degraus da biblioteca com passo incerto, s desejava alcanar o carro e partir. Esperava ter bastante gasolina no tanque.
	Alli...
Allison ficou paralisada no xiltimo degrau como se gelo houvesse substitudo o sangue em suas veias. No precisou erguer o olhar. Sabia quem a chamava por causa do sotaque meio germnico, meio ingls. O corao disparou, e ela cobriu a boca com a mo, evitando deixar escapar o grito que ameaava explodir.
Apenas depois de respirar fundo e controlar-se, comeou a erguer o olhar... subindo... subindo... at alcanar os olhos escuros do homem parado a sua frente.
	Como vai, Jay  saudou, espantada com o prprio autocontrole.
Ele sorriu.
	No est feliz por me ver?
	E por que deveria?
Assim dizendo, Allison tentou se afastar, mas Jay bloqueou-lhe o caminho.
Parecia confiante e estava lindo, usando uma cala que moldava os quadris e uma camisa turquesa, os msculos delineados sob o tecido.
	Certa vez fomos bons amigos, Allison.
As palavras foram acompanhadas de um malicioso brilho nos olhos que ela bem conhecia.
Meu Deus! Depois de tanto tempo, como conseguia ainda emocion-la daquele modo?
	Isso foi sculos atrs  replicou com frieza.  Agora preciso ir para casa.
O rapaz baixou o olhar para sua mo esquerda e pareceu ficar satisfeito.
	Vejo que ainda no se casou tambm.
	E por que deveria?  Allison conseguiu contorn-lo e rumou para o carro, falando por sobre o ombro.  Continuo tendo casos sem importncia com homens como voc! Apenas sexo, nada de compromisso nem responsabilidade.
Pouco se importava em parecer cnica. Desejava apenas que ele fosse embora para sempre.
Comeou a correr to rpido como os prprios pensamentos. Por que Jay voltara? Bem na hora em que comeava a pensar que passara para uma nova fase da vida, sem lembranas dolorosas das semanas que haviam vivido juntos na casa da praia... Como a fizera de boba!
Entrou no carro e tentou virar a chave, mas uma mo forte a impediu.
Allison sibilou entre os dentes:
	No ouse me tocar! Juro que...
De imediato, Jay ergueu a mo, demonstrando inocncia.
	Tudo bem. Prometo no toc-la. S desejo conversar.
	No!
	Por qu?
	Por qu?! Ficamos juntos quase dois meses, Jay! Ento, voc desapareceu. Ou no est lembrado disso?
	Lembro-me muito bem...
Por um breve instante, pareceu  Allison ver um brilho terno nos olhos profundos que logo desapareceu, substitudo pela teimosia.
	Ento  prosseguiu ela  deve lembrar-se tambm que no deixou nem um bilhete de despedida. Apenas... saiu de minha vida.
	Acho que... no soube como dizer"adeus.
Allison empurrou-o, surpreendendo-o, e tentou dar partida no carro.
	Alli, pare!
Mais rpido que um raio, ele abriu a porta e tirou-a do carro como se fosse um saco de compras. Allison tremia quando a empurrou de encontro ao capo, e aproximou-se tanto que a deixou sem movimentos.
	O que deseja de mim, Jay? - gritou, as lgrimas marejando-lhe o olhar.
J lhe roubara tanto... Fora o primeiro homem a possu-la, seu primeiro e nico amor, e a deixara carregando um beb. A dor do abandono quase a fizera enlouquecer.
Sem amor, sozinha... Abandonara-a, com o encargo de cuidar de uma frgil criana que haviam concebido em uma noite de amor na praia, quando acreditara, com todas as foras, que era amada.
Quando Jay partira, e Allison descobrira que estava grvida, tratara de tomar as providncias necessrias e fazer os preparativos, tentando manter-se ocupada. Dissera a si mesma que, caso conseguisse sobreviver naquele ano, poderia lidar com qualquer problema na vida. Jamais pensara em rever o homem que a abandonara.
	S quero fazer algo de bom para voc, Allison.
Algo no tom de voz a fez perceber que a frase fora ensaiada.
	O melhor que pode fazer por mim, Jay,  ficar fora da minha vida!
Mas ele meneou a cabea em dvida, a brisa do oceano fazendo uma mecha dos cabelos negros cair sobre a testa. O olhar sombrio fixava-a sem dar trgua.
Allison pensou em gritar por socorro, mas mudou de ideia. Algo no brilho daqueles olhos a deixava mais curiosa do que amedrontada.
	Vamos caminhar na praia  disse ele.  Tenho algo a lhe dizer e garanto de que vai gostar.
Allison suspirou, lanando-lhe um olhar contrariado.
	 o nico modo de me livrar de voc?
A resposta foi uma risada.
	Sem dvida!
	Devo estar louca  resmungou Allison.  Muito bem! Dez minutos caminhando na praia, e depois vou embora. E voc tambm.
	Deixarei que decida isso depois de dizer por que motivo vim. Espere um pouco!
Allison j sara andando pela estrada que levava  praia. Jay teve que se esforar para acompanhar suas passadas vigorosas. A jovem estava habituada a andar depressa para exercitar-se, enquanto empurrava o carrinho de Cray. Naquele instante, em especial, sentia grande necessidade de mover-se, e bem depressa.
A praia contornava Long Island, formando uma enseada ao longo da costa onde havia siris minsculos e peixes prateados menores que um dedo mnimo, em meio a algas verdes e brilhantes. Gaivotas e andorinhas voavam em meio aos cascalhos. Naquela poca do ano, todos os banhistas j haviam ido embora.
Allison respirou fundo o ar marinho, ouvindo os gritos dos pssaros. Como sempre, o oceano exercia um poder calmante sobre ela, fazendo-a recobrar a serenidade e o bom senso. Ficou repetindo para si mesma que no iria deixar aquele conquistador perturb-la. Poderia dizer-lhe que fora divertido o tempo que haviam passado juntos, mas que no pretendia retomar do ponto em que haviam parado.
Por que lhe dar a satisfao de saber quanto fora importante em sua vida?
Quem sabe, poderia ser criativa e inventar um amigo ou dizer que se casara e tinha um beb... no! Isso no! Impossvel muni-lo com muita informao, pois poderia descobrir a verdade.
Allison parou entre a calada e o mar, o corpo tremendo ao pensar que estivera a ponto de cometer um grande erro. Era perigoso contar-lhe qualquer coisa a respeito do que ocorrera aps sua partida. Baixou o olhar para a areia mida e colocou as mos nos quadris, em seguida, ergueu os olhos para o oceano e esperou que Jay dissesse o que queria. Dois barcos passavam mais alm. A marina, na enseada prxima, estava repleta de embarcaes de recreio, grandes e pequenas. No ms seguinte, quase todas seriam rebocadas e ficariam nos estaleiros durante o inverno.
Ancorado, um tanto separado dos demais, estava um iate enorme, quase trs vezes o tamanho da maior embarcao na marina. Flutuava majestoso, quase sem se mover sobre as guas, como se no estivesse preocupado com as ondas e o vento.
	Que beleza!  exclamou Allison.
	E maravilhoso, no ?
	Creio que jamais vi algo to grande na enseada de Nanticoke.
	Chama-se Rainha Elise e cruza o Atlntico como um relmpago.
Allison deixou o olhar passear do iate imenso para o ps do homem a seu lado.
	Como voc mente...
Dessa vez, o riso foi muito alto.
	Qu?!
	Ouviu muito bem. No faz a menor ideia do nome daquele barco. Est apenas tentando exibir-se.
	De jeito nenhum, Alli! Estou dizendo a verdade!
	Bobagens!  No conseguia mais fingir indiferena e assumir o papel de mulher liberada em amor.  Dois anos atrs, disse-me que era um estudante em frias de vero. Falou que estava se formando em cincias polticas em Yale. New Haven  aqui perto, portanto achei a histria plausvel.
	E era verdadeira.
	No minta, Jay!  Allison gritou, voltando-se e encarando-o. Mal conseguia falar de tanta raiva.  Jamais foi estudante em Yale. Sei porque chequei!
Ele a olhou, sem nada dizer.
Allison estava quase chorando, ao lembrar-se de como ficara desesperada, tentando localiz-lo. Mesmo que no desejasse voltar, queria contar-lhe sobre o beb. Estivera to confusa, assustada e sozinha... Mas ele desaparecera. No final, apenas desejara que ouvisse sobre a deciso que tomara de ficar com a criana. Talvez Jay tivesse adivinhado que a engravidara e por isso a deixara. Porm, fosse qual fosse a situao, seu senso de justia a impulsionara a contar-lhe a verdade: ia ser pai. Ento, poderia tomar suas prprias decises.
	Cale-se!  comandou, ao perceber que Jay abria a boca para falar.  Liguei para todos os funcionrios da faculdade e insisti que deveria haver um Jay Thomas no corpo discente. Mas responderam-me que no existia ningum inscrito com aquele nome.
Ele parecia mais surpreso que zangado.
	Fez isso? Resolveu mesmo seguir minha pista?
Allison apenas o encarou.
	Meu Deus!
	Voc me enganou, Jay. Usou-me. S desejava um romance de vero. Fui muito ingnua e no percebi que estava envolvida em uma histria banal e sem consequncias.
	Desculpe-me. Esse  um dos motivos de ter voltado... pedir perdo pelo modo como a tratei. Quero consertar as coisas. Vamos jantar juntos.
Allison ergueu as mos para o cu em um gesto impaciente, e comeou a descer a praia. Estava com tanto dio que poderia estrangul-lo.
Inacreditvel  murmurou para si mesma.
O homem roubara seu corao, tirara sua virgindade e a abandonara depois de deix-la grvida. Agora queria oferecer-lhe um jantar para "consertar as coisas". Sabia que no poderia ter respondido, pois a raiva embargava-lhe a voz.
	Alli! Oua-me!
Ignorando-o, continuou caminhando, a areia entrando nos sapatos, tornando cada passo doloroso e lento.
Uma mo segurou-lhe o brao com violncia, tomando-a de surpresa. No o ouvira aproximar-se. Recobrou-se do susto e encarou-o, os ombros eretos, o olhar brilhando de emoo e raiva. Mas o queixo tremia, revelando os sentimentos mais ntimos. Piscou, tentando afastar as lgrimas.
	Oua, Alli...
Pretendia falar mais, entretanto mudou de ideia e, com gesto rpido, baixou a cabea e beijou-a nos lbios
O calor e a intensidade do beijo chocou-a. Era a ltima coisa que poderia imaginar de um namorado fugitivo que se enraizara em seu corao e depois sumira sem deixar vestgios. Por que Jay estaria fazendo aquilo?
Allison tremia dos ps  cabea quando, afinal, seus lbios se separaram. Ento, foi enlaada pelos braos musculosos, de modo caloroso. A emoo que sentiu foi estranha, parecia que no s no queria deix-la partir, como tambm desejava ser amparado.
Comeou a falar em seu ingls impecvel, com aquele sotaque muito leve que a intrigara desde o primeiro encontro.
	Por favor, Allison, apenas me deixe explicar.  No esperou por resposta e prosseguiu.  Sim-, menti. Mas no sobre ser estudante de Yale. Estudei l... sob outro nome.
	Seu nome no  Jay?
	Meus amigos americanos s vezes me chamavam assim. De vez em quando era at conveniente. Meu nome verdadeiro  Jacob.
	Jacob  repetiu Allison. O nome parecia ser apropriado, embora no soubesse dizer por qu.  Jacob Thomas?
	No.  Hesitou, e havia tenso no modo como enrijecia o pescoo e os braos.  Costuma ler colunas sociais nas revistas de fofocas?
Allison piscou diversas vezes, pensando o que aquilo teria a ver com a conversa.
	No. Por qu?
	E jornais srios? L?
	A primeira pgina e notcias locais, de vez em quando.
No tenho muito tempo para ler com...
Parou de supeto, antes de dizer "com tanto trabalho e um filho para criar..." Jacob suspirou e abraou-a forte, o que a deixou ainda mais confusa.
Prometa que vai me deixar terminar de falar.
Allison tinha vontade de gritar.
Diga de uma vez, Jacob ou seja l quem for, e deixe-me seguir meu caminho!
Jacob respirou fundo de novo.
	Meu nome verdadeiro, por inteiro, : Jacob Phillipe Mark
von Austerand, prncipe coroado de Elbia. Aquele iate enorme  meu, e quero que jante l comigo esta noite.
Allison fechou os olhos, sentindo que ia desmaiar. Nada disse nem se moveu. Por fim, Jacob deixou cair os braos ao longo do corpo e deu um passo atrs, a fim de observ-la. Parecia muito srio.
Apertando os lbios, Allison sorriu com meiguice.
	Prazer, eu sou a rainha Elizabeth. Veja se arranja o que fazer, Jacob!
Antes que houvesse resposta, Allison galgou uma duna em direo  estrada. A ltima coisa que viu, ao olhar para trs, foi Jacob imvel, um olhar estupefato no rosto bonito.

CAPITULO II

Prncipe coroado! Essa  boa! Um universitrio inteligente poderia sair-se com outra histria melhor!
Allison arfava ao entrar no carro e partir em direo  casa de Diane.
Talvez ficasse por l algumas horas, ajudando a irm com as crianas. Estivera exausta ao deixar a biblioteca, mas a raiva dera-lhe energia. Se Cray estivesse melhor, poderia ajudar Diane com as tarefas domsticas. Alm disso, atrasar a volta para a prpria casa talvez fosse uma boa ideia. Caso Jay demonstrasse ser muito teimoso, poderia tentar procur-la de novo. Tinha certeza de que Jay... Jacbb... fosse l o nome que tivesse, no lembrava onde sua irm Diane vivia.
Estacionou em frente  casa de Diane que ficava a trs quarteires da praia, e prxima ao centro da cidade. No trancou a porta do carro, mas, pensando melhor, levou as chaves consigo. Nanticoke era pequena e pacfica, mas no desejava que algum adolescente ficasse tentado a dar uma volta com seu carro.
Entrou pelos fundos, sem bater, pegou uma ma da fruteira e desceu a escada para o poro que Diane transformara na rea das crianas, e onde passava a maior parte do dia.
A crianada estava sentada a seu redor, sobre um tapete, enquanto Diane lia um livro ilustrado com figuras coloridas e um urso engraado na capa. Allison sentou-se com as pernas cruzadas, mordiscando a ma e sentindo que, aos poucos, a pulsao voltava ao normal. Cray a viu e levantou-se. Com passinhos trpegos e emitindo sons em sua linguagem de beb, correu para a me, atirando-se em seus braos.
Allison envolveu-o com carinho, murmurando entre os cabelos negros do filho:
Voc deixa tudo perfeito, sabia?
Cray deu um grito de contentamento, e Allison sentiu-se aliviada por ver que estava melhor.
Depois de terminar a histria, Diane colocou cada criana em um cadeiro. Allison ajudou-a a distribuir sucos e biscoitos para o lanche do final de tarde. Sorriu de modo suave.
	Qual a graa?  quis saber Diane.
	Difcil explicar. De qualquer maneira, no iria acreditar.
	Tente.
Allison respirou fundo.
Vi o pai de Cray.
Diane deixou cair o pacote de biscoitos, e farelos espalharam-se por todos os lados.
	Jay?!  Corou, um brilho de raiva no olhar.  Aquele cafajeste! Que ousadia! O que deseja?
	No tenho certeza  respondeu Allison, pensativa.  E no acreditaria nele, sob nenhuma circunstncia. Mas, contou-me uma histria estranha a respeito de ser um prncipe e morar em um iate.  Deu uma gargalhada.  Prncipe de Elbia! Poderia inventar alguma coisa melhor para impressionar uma garota!
Diane parara para recolher os biscoitos.
	Elbia? No  aquele pas perto da ustria, do tamanho de uma noz e que sempre aparece nas notcias sociais?
Allison deu de ombros.
	Sei l... No tenho muito tempo para ler jornais. Levo os dias catalogando livros e tomando conta de Cray. Domingo passado fiz planto e cheguei a lev-lo comigo...
	Espere um momento  disse Diane.  Sirva mais uma rodada de biscoitos para a crianada.
Subiu e voltou a descer em seguida, uma vassoura e uma garrafa de suco em uma das mos, e o New York Times na outra. Largou a jarra e a vassoura, e abriu o jornal sobre a mesa.
	Ouvi qualquer coisa sobre uma reunio nas Naes Unidas para tratar de uma coalizo na Europa Oriental... algo assim.  Enquanto falava, ia folheando as pginas, nervosa, ao mesmo tempo em que Allison pensava se a irm perdera o juzo.  O presidente da Repblica foi encontrar os delegados. Um deles era esse jovem...  Parou de virar as pginas e apontou, triunfante, para uma foto. Aqui est! Prncipe Jacob von Austerand. Nossa! Jamais poderia imaginar que fosse um universitrio, mas... Alli, esse prncipe se parece mesmo com Jay um pouco mais velho,  claro.
Allison agarrou o jornal, e olhou para a foto em preto-e-branco, com trs homens usando ternos sofisticados. O rapaz alto, de ombros largos, apertando a mo do presidente dos Estados Unidos, era Jay, sem dvida alguma!
Leu a legenda da foto em voz alta:
	"O prncipe Jacob von Austerand de Elbia parabeniza o presidente depois de seu discurso na Conferncia da Unio Oriental, tera-feira ltima."
	Playboy egosta!  Diane quase gritou, enquanto varria o cho com raiva.  Ricaos me deixam doente! Acham que podem fazer tudo que desejam, no importa quem fique magoado.
Allison franziu a testa ante o rompante da irm, tentando arrumar as peas do quebra-cabea das quais parecia apenas possuir a metade. Comeava a lembrar-se de trechos de notcias no rdio e na televiso, falando de um prncipe playboy. Estivera envolvido em romances com artistas de cinema, moas ricas da alta sociedade e at uma cantora.de rock. Seria aquele Jay... Jacob? Se fosse o caso, ento onde ela, Allison Collins, enquadrava-se, em meio a tantas mulheres charmosas?
	N-no posso acreditar que seja quem diz ser  gaguejou em pnico.  Diane? Como pude deixar de perceber? O homem  uma figura pblica... uma celebridade!
A irm parou de varrer o cho.
	E como poderia saber? Mesmo se algum o houvesse reconhecido, talvez fingisse, com facilidade, que era apenas parecido com o prncipe. Pelo visto, gosta de pregar peas nas mulheres. Tem uma reputao terrvel, voc sabe...
	Sei...  claro que sei. Faz concorrncia aos Kennedy e aos nobres da Inglaterra.  De repente, Allison sentiu a cabea girar. Fez um gesto de compreenso.  Ento, no passei de um divertimento para ele...
	Parece que sim  disse Diane, limpando os farelos de biscoito nas faces rechonchudas de um dos bebs.  Considere-se com sorte. Agora que sabe a verdade, ser mais fcil esquec-lo.
	Eu j o havia esquecido, at ressurgir na porta da bi blioteca, hoje.
	J? Nunca mais se envolveu com ningum desde que Jay... o prncipe, sumiu h dois anos.
	Isso no quer dizer que ainda esteja pensando nele. Apenas preciso tomar mais cuidado com quem saio, agora que tenho Cray.
	Certo. Ento pretende rev-lo? Jacob?
	Est louca?  claro que no! Nada no mundo faria com que pusesse os ps naquele iate ou em algum outro lugar onde pudesse encontr-lo.
Naquela noite, a campainha soou exatamente s sete horas. Quando Allison atendeu, um homem trajando roupa marrom de mensageiro estava  soleira da porta, segurando uma caixa enorme que lhe ocultava o rosto.
Allison achou que era um engano, pois no encomendara nada.
	Sim?
	Srta. Collins?
Allison franziu a testa, e levou alguns segundos para recuperar a voz.
Jacob?
Ele abaixou a caixa e sorriu.
	Que est fazendo aqui?
	Entregando um pacote.  bem pesado.  melhor levar para dentro.
Passou por Allison e entrou na sala de estar, parando para olhar em torno.
	Aconchegante... Lembro-me da decorao em estilo colonial e de que tinha bonitas reprodues de quadros.
	Saia daqui agora mesmo!  Allison gritou, exasperada.  E leve essa caixa!
Entretanto, Jacob colocou o pacote sobre a mesinha de caf, comentando com calma:
	Mas, ento, no teria nada para usar na festa de amanh  noite.
Allison cruzou os braos sobre o peito e encarou-o.
	Que festa?
	A que darei no Rainha Elise. Est convidada.  Assim dizendo, tirou o bon de mensageiro e passou os dedos por entre os cabelos espessos e negros.  No vai abrir?
Allison perdeu o que lhe restava de pacincia.
	No! Quero-o fora de minha casa... de minha vida... fora... fora... neste exato minuto!
Jacob deu um passo atrs, observando-a como se fosse um animal estranho e selvagem.
	Fora!
Naquele instante, ouviu-se um choro agudo de criana. "No", pensou Allison aflita. "Agora no, Cray!" Por que no mantivera o tom de voz baixo?
Jacob voltou-se para o corredor, as sobrancelhas arqueadas.
	O que foi isso?
Allison pensou em meia dzia de desculpas do tipo: "meu sobrinho... estou tomando conta de uma criana para a vizinha...  a televiso no quarto..." De nada adiantou.
	 meu filho  disse, por fim.  Agora, se sair, irei tomar conta dele.
	Por que no me contou que havia se casado?
	No sou casada.
	Compreendo.  Deu um passo atrs, a expresso sombria.
 Deveria ter percebido que uma mulher bonita como voc no ficaria s por muito tempo.  Voltou a olhar para o corredor.  Mas no parece o choro de um beb de colo.
	Cray tem um pouco mais de um ano, se quer saber.
Mal acabara de dizer aquelas palavras, arrependeu-se. Jacob no era tolo.
	Pouco mais de um ano?
O olhar estava alerta.
	Gostaria que fosse embora agora.  Allison estava desesperada para v-lo fora de sua casa e longe do filho. Respirava com dificuldade.  Preciso preparar Cray para dormir. No estava se sentindo bem.
	Quem  o pai?  perguntou Jacob, a voz carregada de emoo.
	No  de sua conta. Saia!
As mais variadas emoes cruzavam o rosto de Jacob, e aquilo era mais assustador que qualquer palavra. Em vez de voltar-se para a porta, aproximou-se de Allison, segurando-a pelo ombros, o olhar febril e sombrio.
	Irei embora depois que me disser o nome do pai. Talvez eu mesma no saiba.
Allison sentia necessidade de atorment-lo. Afinal, bem o merecia.
	Devo acreditar que, durante o tempo em que estivemos
juntos, tambm dormiu com outros homens?
	E por que no?
	No  esse tipo de mulher, Alli.
Cray ainda chorava no quarto, mas sem tanta urgncia.
	Como pode saber? No ficou tempo suficiente para me conhecer bem.
	Conheci-a o suficiente, Alli. Cada centmetro de seu corpo, cada canto de sua alma doce e generosa.
Soltou-lhe os ombros, mas prendeu-a nos braos. Allison podia sentir o calor do corpo viril, os msculos rijos de encontro s curvas suaves do prprio corpo. Percebeu que o deixara excitado e ficou encabulada.
Entretanto, no tentou livrar-se. Algo a impedia. Quanto tempo no sentia o abrao de um homem... Sara algumas vezes para jantar ou ir ao cinema, tudo arranjado por Diane ou alguma amiga. Mas jamais encorajara um segundo encontro. Percebia, naquele instante, como sentira falta daquelas sensaes maravilhosas que lhe percorriam o corpo.
O choro de Cray havia se transformado em um sussurro sonolento. Allison gostaria que desse um grito forte para ter a desculpa de livrar-se dos braos de Jacob.
Os dedos fortes comearam a acariciar-lhe os contornos dos seios, debaixo do suter de algodo.
	No faa isso  conseguiu murmurar, um fogo abrasador dominando-a.
	Conte-me o nome do pai da criana.
	N-no posso...
	Ento, sabe quem .
	Impossvel... Jay... Jacob... no me faa...
	O qu?
Os lbios estavam muito prximos. Allison fechou os olhos, tentando ficar em silncio e escapar da tenso que sentia.
	Cray  tudo que tenho. Voc foi embora. Por favor, fique longe.
Sentiu como se as foras a houvessem abandonado. As mos de Jacob a soltaram e deu um passo atrs.
	Meu Deus!  o meu filho!
Allison abriu muito os olhos, em sbito pnico.
	No! E meu, apenas meu, e de mais ningum!
Jacob a encarou como se no conseguisse acreditar, embora, no ntimo, soubesse que era verdade.
	Algum  o pai dessa criana. Deixe-me v-lo e saberei.
	No! Saia ou chamarei a polcia. Juro!
Jacob tentou aproximar-se, mas Allison retrocedeu. Um terror como jamais sentira a dominava, cegando-a para qualquer pensamento a no ser um. Se Jacob era mesmo quem dizia ser, possua dinheiro e poder suficientes para fazer tudo que quisesse. Qualquer coisa.
Isso inclua tornar-lhe o filho, se pudesse provar que era o pai de Cray.
At aquele momento, Allison s pensara em seu corao e orgulho, mas naquele instante lhe ocorreu que podia perder Cray, e isso era pior que qualquer coisa.
	Oua-me, Alli, tem minha palavra de honra de que nin gum ir mago-la ou o menino.
Talvez por perceber um medo sutil naquelas palavras, Allison ficou mais tranquila. Permaneceu a distncia, mas encarou os olhos sombrios e confusos. Aquilo era novidade para Jacob. Em poucos segundos, tivera que absorver tudo o que significava ser pai. Allison adaptara-se  situao de me gradualmente.
	No irei mago-la de novo. Desculpe-me. No sabia...
Virou-se, como se no suportasse olh-la, de p, no meio da sala, imvel.
Devagar, Allison deixou-se cair no sof e mergulhou o rosto entre as mos.
	Se est falando srio, Jacob, ento saia agora.
	E isso mesmo que deseja?
	J no disse vrias vezes? V embora... e no volte mais.
Ouviu-o caminhar pelo carpete, resmungando por entre os dentes. Sentiu-o debruar-se sobre o sof, estudando-a... Allison permaneceu o tempo todo de olhos fechados, evitando-o, e rezando para que fizesse o que pedira.
Mas quando a porta fechou-se com suavidade, algo quebrou-se em seu corao.
 Jacob?  sussurrou, deixando cair as mos.  Jacob?
O carro alugado era um brilhante Iincoln Continental. O interior luxuoso contrastava com a simplicidade do lar de Allison.
Jacob ficara a olh-la, indefeso, quando cara sentada no sof barato e antigo. Talvez fosse um dos tesouros comprados em liquidao. Jacob no se lembrava daquela pea quando haviam passado aquele vero juntos.
Porm, no conseguira mais esquecer aquela sala com suas cores douradas e mostarda, o carpete to bem conservado que poderia durar mais vinte anos. Nada naquela casa de praia tinha muito valor material, exceto por algumas peas de porcelana antiga. Entretanto, tudo junto, daria uns cem dlares, menos do que a camisa de seda que estava usando.
Quando haviam ficado juntos, Allison no parecera to diferente do prncipe. Ambos adoravam livros, falavam horas seguidas sobre msica, arte e literatura. Allison sonhava em conhecer terras distantes, e Jacob brincara dizendo que a levaria a qualquer lugar: Roma, Viena, Paris e Madri, sem mencionar que j estivera em todos eles. E ela ria, sem suspeitar que possua, de fato, o poder de lev-la a qualquer parte.
Naquela noite, Allison parecera-lhe vir de outro mundo, um lugar onde as pessoas economizavam centavos para comprar um cobertor, onde um chal com dois quartos e um s banheiro era grande o suficiente para manter uma famlia de trs ou quatro filhos. Um lar onde o orgulho e a honra de uma jovem valiam mais que qualquer dinheiro.
E ali agora existia uma criana! Fora um choque. Sempre tomara tanto cuidado... Frederick, com constncia, desde que tinha doze anos, alertara-o sobre os perigos de um prncipe envolver-se com mulheres. No era apenas uma questo de sade, mas tambm financeira e de hierarquia.
Se uma jovem aparecesse na porta do castelo com um beb no colo, dizendo que fora gerado pelo prncipe... no mnimo a imprensa teria notcias por muito tempo. E se pudesse provar que a criana era, de fato, de Jacob, Elbia sofreria as consequncias. A moa deveria ser muito bem paga. Um milho de dlares no seria demais para silenci-la e criar o filho em segredo.
Jacob sabia que o rei no se importava com suas aventuras,  contanto que fosse discreto e no causasse escndalos. Assim que sara da meninice, tivera inmeras oportunidades de ser discreto. Depressa aprendera que o dinheiro e a fama eram afrodisacos poderosos para as mulheres, e muitas lanavam-se em seus braos s para terem o prazer de contar que haviam ido para a cama com um prncipe. Jacob sempre era generoso em seus breves romances. Comprava presentes caros para as amantes, como jias, carros e roupas elegantes.
Uma encantadora dama recebera uma butique de presente em Paris, em troca de alguns meses de romance com o prncipe. Se sentiam-se desapontadas quando tudo acabava, no reclamavam. Os presentes de despedida que recebiam eram um grande consolo.
Alli fora diferente.
Naquele dia de junho em que a conhecera na praia, sentira que no era mulher de se deixar impressionar por um ttulo de nobreza ou muito dinheiro. Sorrira para ele, e um calor intenso percorrera o corao de Jacob. Dera uma gargalhada, e o prncipe percebera que a vida era simples e bela, sem os compromissos que o aguardavam em Elbia.
Alli adorava ler e trabalhava em uma biblioteca. Os livros tambm tinham sido os melhores amigos de Jacob, enquanto crescera em um castelo frio e sem carinho, circundado pelos vales de sua terra natal. Sentia-se bem ao lado de Allison. Como se fosse um homem comum e no algum cujo destino tivesse sido delineado ao nascer, sem chances de uma escolha de carreira, um lar simples ou uma companheira comum.
Escolhera-a para algumas semanas de amor e amizade e fora muito feliz, embora por pouco tempo.
Ao contrrio das outras vezes em que tivera amantes, no revelou quem era. Tinha certeza de que, se o fizesse, Alli no se deixaria envolver nem permitiria que ficasse em sua casa, pois compreenderia que Jacob jamais permaneceria ao seu lado.
E fora assim que a enganara, do modo mais cruel possvel. Sabia que Alli apaixonara-se e que iria mago-la. Mas no tivera coragem de ficar e ver as lgrimas em seus olhos quando dissesse adeus.
Ao pensar nessas coisas, Jacob deu partida no carro e foi embora. Chegou  marina sem prestar muita ateno. Deixou o carro com o valete, e acenou para uma lancha-txi. Apontou para o Rainha Elise, ignorando o comentrio do rapaz que pilotava.
At aquele dia, a imagem de Allison o assombrara de um modo que no podia nem queria definir para Thomas, Frederick ou o pai. Houvera mulheres depois dela, mas nenhuma o excitara tanto. O rosto de Allison surgia a sua frente nos momentos mais imprprios, interferindo em sua habilidade de tomar decises importantes que afetariam o futuro de Elbia.
Pensara que, revendo-a, conseguiria tir-la da cabea, como dissera a Thomas. Imaginou que estaria muito mais gorda e fora de forma, casada com um brutamontes ou um caminhoneiro, e com um beb feio, parecido com o pai.
Mas nada disso acontecera. Continuava doce, inocente e perfeita como quando a conhecera. E conseguia despertar-lhe sensaes violentas, sempre que a tocava e ainda mais quando a beijava. No conseguiria esquec-la, essa era a triste realidade.
Mas, o pior de tudo, fora saber que tinha um filho. E aquele era um problema do qual no podia escapar.
Se Allison prometesse jamais revelar a identidade do pai da criana, tinha certeza de que cumpriria a promessa. Mas... e se um reprter intrometido descobrisse a verdade, de alguma maneira? E se algum, prximo  Alli, decidisse que poderia ganhar dinheiro vendendo seu segredo?
E, fora tudo isso, Jacob no era to baixo ao ponto de escapar de seus deveres de pai. S em pensar que tinha um filho, novas emoes o possuam. Orgulho... preocupao... responsabilidade.
A lancha comeou a circundar as embarcaes elegantes, rumando para a que superava todas: o iate Rainha Elise.
Jacob lembrou-se de que no pegara de volta a caixa, e deu de ombros. O que importava agora? Se Alli aceitaria ou no o presente era a menor das preocupaes.
Allison postou-se junto ao bero de Cray, olhando-o com ternura enquanto dormia. Amava o menino como era de se esperar, mas agora temia por ele e por si mesma.
Jacob.
Por que voltara? Parecera surpreso ao ouvir Cray chorar no quarto. Teria sido uma reao sincera? Ou saberia o tempo todo que ela gerara seu filho?
Por certo, um prncipe tinha todos os meios de seguir a vida de uma pessoa. E se tivesse sido informado da existncia de Cray muitos meses antes? E se voltara para reclamar o filho? Aquela possibilidade a amedrontava.
Mas havia falhas naquele raciocnio. Se ter um filho fora algo to importante para Jacob, por que demorara tanto a aparecer? Por que no surgira quando Allison estivera grvida? Naqueles meses vivera apavorada, sem saber se poderia tomar conta de uma criana e sustent-la com seu pobre salrio.
Talvez Jacob estivesse tramando algo muito pior. Sem sombra de dvida, alguma coisa queria, j que voltara, e at que Allison soubesse do que se tratava, no poderia proteger-se nem ao filho.
Depois de cobrir Cray, rumou para a cozinha e fez um ch quente, voltando para a sala. Ali, no cho, jazia a enorme caixa que Jacob trouxera.
Allison sentou-se no sof, observando o volume enquanto tomava ch.
Poderia pagar algum para devolver a caixa a Jacob em seu estpido iate, mas o dinheiro era pouco para gastar nesse tipo de extravagncia. Jogaria a caixa fechada no lixo.
Mas algo a impedia de jogar fora algo novo e... Como saber do que se tratava se no olhasse?
Em um impulso, aproximou-se da caixa, inclinou-se e abriu-a.

CAPTULO III

Com as mos trmulas, Allison foi afastando 'as vrias camadas de papel de seda cor-de-rosa. Reconheceu o logotipo da loja, pois havia passeado com Diane por Manhattan e visto o estabelecimento onde apenas um leno de seda custava tanto quanto todos os vestidos das duas irms juntos.
Prendendo a respirao, tocou algo macio e acetinado. Suspendeu o tecido e deparou-se com um vestido azul-pavo, o traje mais bonito que j vira.
Ficou furiosa.
Parecia que Jacob pretendera que o usasse em sua festa e que, dando-lhe algo to caro, poderia persuadi-la a fazer o que bem entendesse, do mesmo modo que seduzia centenas de mulheres. Era um reflexo, como estalar os dedos chamando um garom. "Venha c! Obedea!"
Alm disso, de certo modo, tambm estava dizendo que duvidava de que Allison possusse uma roupa apresentvel para exibir entre pessoas de classe.
Voltou a guardar o vestido na caixa, murmurando entre os dentes:
 O senhor ver, Alteza Real.
Jacob estava parado na proa do iate, um martni gelado em uma das mos, um charuto na outra, observando mais uma leva animada de convidados subir para a embarcao. Eram membros das Naes Unidas, polticos locais, jornalistas e executivos interessados em abrir escritrios em Elbia. Havia at um escritor de peas musicais da Broadway. Bebiam champanhe  vontade e provavam as iguarias preparadas pelo nico bufe de Nanticoke.
Mas entre os rostos radiantes que o cumprimentavam, no distinguia o de Alli. Duvidava de que viesse, porm no deixava de procur-la entre os convidados.
Uma hora aps o incio da festa, a lancha voltou a surgir, dessa vez trazendo apenas uma passageira. Vendo que a figura feminina no trajava o vestido azul-pavo, Jacob perdeu o interesse.
Porm, quando a silhueta pequena e delicada comeou a subir os degraus do iate, um perfume conhecido o envolveu.
Os cabelos da jovem brilhavam como trigo maduro  luz do sol poente, soltos e longos, as mechas danando com a brisa marinha. Usava simples brincos de ouro e vestia um conjunto de pantalona de seda. O efeito era de uma elegncia despojada e misteriosa.
O tecido era cor da pele, com mangas transparentes, provocando um efeito bonito e sensual. Trazia uma pequena sacola de compras na mo, e Jacob sentiu um fio de esperana. Aproximou-se. Era Allison.
	Est deslumbrante  disse, enquanto a maioria das pessoas presentes o observava receber a ltima das convidadas.
	Obrigada...
	O vestido que lhe dei no serviu?
	No tenho o hbito de aceitar presentes de estranhos.
Aquilo o magoou. Um estranho. Haviam dormido juntos, mantido grande intimidade fsica, porm, era verdade, fizera o mesmo com outras mulheres, e nem por isso deixara de julg-las desconhecidas. Nem lembrava o nome de muitas... Por qu, ento, ficar magoado se Allison pensava o mesmo a seu respeito?
	Talvez possamos remediar a situao  disse, brindando-a com seu mais lindo sorriso que j conquistara tantas mulheres.
 A maioria dos convidados partir dentro de algumas horas.
	E eu partirei com eles  replicou Allison.  Vim apenas para devolver isto.
Entregou-lhe a sacola que Jacob examinou. No fundo, embrulhado como uma bola, encontrava-se o vestido caro que lhe dera de presente.
	Lamento... pensei que fosse gostar.
	Por qu? Apenas pelo fato de acenar com um pedao de pano, uma mulher deve cair a seus ps?
Jacob piscou vrias vezes, procurando uma resposta. J conhecera essa faceta de Allison, dois anos atrs, porm, de alguma forma, pensara que, dessa vez, aceitaria.
Ao v-lo calado, Allison continuou:
	Percebo. Sempre deu certo, no  isso? Bem, existe uma primeira vez para tudo.  Olhou ao redor.  Estou faminta.
Enquanto tentava recuperar-se do choque, Jacob observou-a atravessar o deque, sorrindo para todos e descendo alguns degraus.
Ela o repelira!
Talvez devesse ter comeado direto pela segunda fase de presentes: uma pulseira de brilhantes. Porm, suspeitou que, caso o tivesse feito, ela a atiraria em seu rosto. Qual o problema com aquela moa? No sabia apreciar coisas de qualidade?
Aos poucos, a raiva o dominou, cada msculo do corpo ficando tenso. Resmungando, colocou a sacola debaixo do brao, e saiu atrs de Allison.
Um casal de idade conversava com ela, mas ante o olhar sombrio do anfitrio, afastou-se com uma desculpa.
Jacob agarrou-a pelo ombro.
	O que pretende?
	Eu, Jacob?!
	Sim. O que quer de mim?
Em resposta, Allison olhou para uma bandeja com um arranjo de frutas tropicais.
	Olhe para mim, Alli. Por que devolveu meu presente?
	No preciso que ningum me compre roupas.
	Compreendo. Ento, estava certo. Deseja mais. O que ?
Allison encarou-o com um olhar gelado.
	Absolutamente nada. Foi por isso que vim hoje  noite, para deixar esse ponto bem claro.
	Mentirosa!
Em vez de reagir com raiva, como Jacob esperara, estudou-o, de modo despreocupado, da cabea ao ps.
	Por que deveria mentir? E assim que julga todas as mulheres? Sempre querem alguma coisa de voc?
	Sempre.
	Certo. Mas existe um motivo para isso, voc sabe.
	Qual?
	Esperam uma recompensa, pois essa  a regra que sempre estabelece em seus relacionamentos.
	Do que est falando? Regras? Sempre sou generoso com as mulheres...
	No foi isso que quis dizer.  generoso do ponto de vista material. O problema  que tem a reputao de se cansar de suas amantes mais depressa do que uma modelo troca de sapatos. Qualquer mulher que se envolva com voc e com um pouco de bom senso, sabe que ser abandonada em poucas semanas. Portanto, tem o direito de encar-lo do mesmo modo que voc a encara. Ir trat-la como um objeto, e ela, por sua vez, ir receber presentes caros.
	A imagem que tem de mim  a de um sujeito muito baixo. No sou assim. Pergunte a Thomas!
Allison riu, balanando a cabea e fazendo ondular os cabelos louros.
	Quem  Thomas? Seu camareiro?
A ltima palavra foi dita com desdm.
Allison o estava deixando louco. Que direito tinha de analis-lo, aquela bibliotecria de cidade pequena?
	Sim... Thomas  meu motorista e guarda-costas, e tambm meu melhor amigo.
	E, tenho certeza,  muito bem recompensado por tomar seu partido em qualquer discusso.
Jacob viu tudo vermelho  sua frente. Desejou sacudi-la e faz-la compreender que no era mau carter. O problema era que o mundo se recusava a trat-lo como aos outros homens. E se por um lado estava cercado de privilgios, por outro eram-lhe recusadas coisas normais como privacidade, escolha de educao e carreira. Nem sequer podia viver onde bem quisesse e se casar com quem desejasse. Esses privilgios jamais teria.
Apertou o brao de Allison, fazendo-a compreender que s a libertaria quando quisesse. Falou por entre os dentes:
	Thomas sempre d sua opinio sincera, mesmo sabendo que eu possa no gostar.
	 mesmo? E qual foi seu comentrio quando voc me abandonou, dois anos atrs? Ou no fazia parte de sua comitiva real naquela poca?
	Estava comigo tambm em Yale, porm lhe disse que no se preocupasse, e ele tirou merecidas frias em Londres para rever a famlia.
	Ento, Thomas nunca soube a meu respeito?
	No.  Por que ser que sempre sentia vontade de baixar a cabea, envergonhado, quando Allison falava do passado? No era seu hbito sentir-se culpado pelo que fazia. Por outro lado, nunca gerara um filho antes.  No a forcei a ser minha amante. No a seduzi com minha fortuna, com promessas de um fim de semana nos Alpes, jias...
	Isso mesmo! Porque era inteligente o bastante para perceber que essas coisas no me seduziriam.
	Mas poderia ter prometido casar-me com voc. Jamais disse que a amava.
	E verdade  a voz de Allison soou sofrida.  Eu tambm no disse que o amava.
Jacob sentiu uma pontada no corao, ante aquela resposta. Por que deveria se incomodar? Jamais se importara, antes, se alguma mulher o amava ou no.
Nunca pensara muito no amor, pois sempre considerara aquele sentimento como um sinnimo de companhia. Centenas de pessoas sempre haviam circulado a seu redor, providenciando tudo que desejava, respondendo a suas perguntas, dando-lhe comida, roupa e diverso.
Antes de Thomas houvera babs, governantas, mordomos e empregadas. Sua me morrera havia cinco anos, mas, de alguma forma confusa, no sentia muita saudade. A rainha sempre fora muito ocupada para lhe dedicar algum tempo. Por certo, nunca expressara em palavras que amava o filho, porm no havia irmos para rivalizarem com Jacob em afeto.
Em resumo, o amor nunca representara um problema e jamais pensara muito a respeito.
	Alli, por que precisa ser to difcil e briguenta?
	Eu?! No estou sendo difcil, prncipe Jacob.  Bateu os clios com ar inocente.  Vim dizer obrigada pelo vestido, mas no o quero nem preciso dele. Tambm agradeo por ter-me convidado para sua linda festa. Est muito agradvel.
Sem dvida, estava sendo irnica, mas Jacob no conseguia ficar zangado. Deixava-se dominar pela eletricidade que flua de Allison e que o enlouquecia.
	Quer alguma coisa  murmurou.  No pode ser to diferente das outras.
	Creio que desejo algo, sim. Vou dizer o que   sussurrou de modo conspiratrio.  Daria meu reino por um sanduche de presunto. Tudo isso aqui  muito gostoso, mas levaria uma semana para saciar meu apetite com canaps to minsculos. 
	Chega de brincar, Alli! Apenas diga o que quer e vamos parar com os jogos. E o menino, certo? Quer dinheiro para ele. Muito bem! Nem vou discutir a possibilidade dele no ser meu filho. Se precisa de dinheiro, irei garantir isso. Mas no quero que uma s palavra vaze para a imprensa ou... Parou de falar ante o olhar furioso de Allison.
	Rapaz convencido e mimado! Jamais conheci algum to pomposo, prncipe von... Seja l qual for seu nome!
Jacob ficou atnito ante aquela reao.
	Estou lhe oferecendo a soma que determinar para uma criana que nem vi. Nem sei se  meu filho! Acho que estou sendo bastante generoso.
	No quero seu dinheiro!  replicou Allison.  Desejo apenas que suma e deixe em paz a mim e meu filho. Saia do caminho! Vou embora agora!
Por fim, Jacob entendeu. Allison apenas pedia que ele partisse. Pela primeira vez na vida, encontrara algum que no pretendia aproveitar-se de seu dinheiro e fama. E no sabia como lidar com aquilo.
Ento, fez a coisa que desejara fazer desde que a vira subir no iate. Tomou-a no& braos e beijou-lhe os lbios com fria. O beijo pareceu prolongar-se por muito tempo. Afinal, sentiu-a relaxar.
Allison no lutava, porm tambm no correspondia  carcia, e aquilo o aborreceu. De modo calculado, comeou a provoc-la, deslizando a lngua pelos lbios e, por fim, fazendo-a gemer.
Ento, algo estranho sucedeu. Foi como se Allison incutisse nova vida atravs de seu hlito, e Jacob voltou a sentir a mesma emoo que sentira naquele vero, dois anos atrs.
Experimentou a excitao e o desejo que apenas Allison Collins conseguia faz-lo vivenciar.
Sempre pensara que o modo distrado com que tratava as mulheres fosse produto das preocupaes com o estudo ou com os deveres de prncipe. Porm, Allison Collins tinha o poder de libert-lo da presso e faz-lo sentir-se um homem livre.
	Alli  murmurou , juro por Deus que gostaria de ter ficado com voc...
	Fez uma escolha...
	No. Nunca haver escolha para mim. Meu futuro foi determinado muito antes de meu nascimento.
	Pobre menino rico...
No havia ironia naquelas palavras. Ela comeou a acarici-lo com meiguice, fazendo-o desej-la com furor.
	No quero sua piedade, mas mereo seu desdm  disse Jacob.  As coisas ficaram muito srias entre ns dois, muito mais do que imaginara.  Beijou-a de leve no ombro, lutando por dominar-se.  No soube como dizer adeus. E isso nunca tinha sido um problema em minha vida, antes de voc.
Com delicadeza, Allison segurou-lhe o rosto, encarando-o.
	Adeus, Jacob. Poderia ter sido maravilhoso, mas perten cemos a mundos diferentes..
Mais rpido do que poderia imaginar, desvencilhou-se dos braos do prncipe e comeou a subir para o deque.
	Espere!
Seguiu-a, porm Allison j estava a meio caminho. Thomas surgiu ali, um olhar preocupado no rosto redondo tal qual a lua cheia. A roupa cor da pele esvoaava, enquanto Allison corria. Jacob viu-a parar um instante e perguntar a Thomas quando chegaria a lancha.
	Providenciarei agora mesmo, senhorita  respondeu o velho ingls, lanando um olhar reprovador ao prncipe.  Alteza, creio que a jovem deseja ficar sozinha enquanto espera pela embarcao.
Jacob no acreditava no que ouvia. Thomas e Allison, sem mesmo se conhecerem, estavam aliados contra ele!
	No fiz nada de errado! Conte, Alli!
Hesitante, Allison encarou Thomas.
	O prncipe no me ofendeu. Estou nervosa e com pressa por... motivos familiares.
Thomas estudou-a por um momento.
Estarei por perto se precisar de mim, senhorita.
Jacob apercebeu-se dos convidados que passavam a seu lado. 
A maioria, por instinto, tratava de afastar-se, sentindo que algo perturbara o anfitrio que estava to sombrio.
	Tem razo  sussurrou a Allison.  No h desculpas para o modo como a tratei, porm aprendi a tirar partido da quilo que sou, acho.
	E o que importa quem voc seja? Todos temos sentimentos. Ser abandonada por um homem causa sofrimento, seja ele pobre ou rico.
Jacob meneou a cabea, agitado, desejando faz-la entender.
	Jamais deveria ter-me envolvido tanto. Foi meu erro. S poderei me casar com uma mulher de sangue azul.
Allison encarou a gua prateada, pensativa.
	Ento, sair com uma plebeia como eu ser sempre uma diverso.
A palavra "plebeia" parecia errada em relao  Allison. Ela no era nada comum.
	Tambm saio com jovens aristocratas, e elas sabem que, na hora de escolher uma esposa, a lista ser muito restrita.
	Interessante  comentou Allison de modo seco.  E quando dever ocorrer essa grande escolha?
	No final do ano.
	Fala srio? Deve escolher uma esposa, dentre algumas poucas nobres, e viver com ela por toda a vida?
	Bem...  Jacob pigarreou.   a tradio em meu pas.
	O que quer dizer com isso?
O prncipe suspirou, olhando para Thomas que conversava com alguns convidados, a fim de desculp-lo pelo comportamento pouco acolhedor.
	Quero explicar tudo a voc.  o mnimo que posso fazer, mas os detalhes so complexos. Pode ficar mais um pouco a bordo, depois que todos forem embora?
	No sei... Minha irm est com o beb, e ela j tem muitas crianas para cuidar.
	Por favor, telefone para ela! Preciso muito conversar com voc a ss.
	No seria sensato.
Jacob sentia a atrao que existia entre os dois, mas no iria ceder quele desejo.
	Vou me comportar. Prometo que nada acontecer a no ser que voc queira, Alli.
	Certo. Ficarei, mas s at meia-noite. 
A hora que se seguiu foi difcil para Allison. Perdera o apetite por completo, e no conseguia concentrar-se na conversa com os outros convidados. Sempre que vislumbrava a silhueta alta e forte de Jacob, ficava sem flego.
s onze horas, os convidados comearam a se retirar.
Jacob era um bom anfitrio, mas continuava distrado, procurando Allison com os olhos, como se temesse que fosse embora.
Por fim, ficaram a ss. Pelo menos, to ss quanto um prncipe conseguia ficar. A tripulao permaneceu: capito, cinco marujos, um cozinheiro e dois valetes, assim como Thomas.
	Venha para a proa  convidou Jacob.   lua cheia e poderemos conversar com privacidade.
Allison riu.
	Sua ideia de privacidade  bem diferente da minha. No podemos descer?
	Tudo bem. Mas pensei que tivesse medo de ser atacada, assim que no houvessem testemunhas.
	Jamais tive medo de voc, Jacob. No nesse sentido. 
Allison lembrou-se dos vrios passeios que haviam dado pela praia, de mos dadas. Parecera to perfeito naquela poca... Jacob conduziu-a escada abaixo para um deque inferior. Abriu uma porta, revelando uma sala onde havia um longo sof curvo. No centro do cmodo via-se um bar e controles remotos. Preso na parede, um aparelho de televiso.
	Champanhe?  perguntou, depois que Allison acomodou-se a um canto do sof.
	Prefiro refrigerante, obrigada.
Jacob preparou dois copos com soda e foi sentar-se um pouco distante, percebendo que Allison precisava de espao. Por muito tempo ficaram em silncio, bebericando.
Allison pressentia que Jacob tambm estava muito nervoso. Por qu? Afinal, para que se preocupar com uma mulher que j dissera que no iria para a cama com ele de novo, nada queria dele e no contaria seu segredo a ningum?
A menos que... e isso a apavorava, planejasse tomar-lhe Cray. Nesse caso, era bom saber de suas intenes logo, para poder revidar at o ltimo alento.
Por fim, Jacob pigarreou, comeando a falar:
	Acredito que seu filho  meu tambm.  Ergueu a mo, interrompendo-a ao ver que ia falar.  Quero dizer apenas que fomos ns dois que o geramos. Jamais tentaria roub-lo de voc.
	E eu no suportaria tal coisa!
	Compreendo. No tive a inteno de abandon-la grvida, embora pretendesse ir embora para sempre. Porm... nunca mais fui o mesmo depois que a conheci... no sei explicar por qu. Estou muito confuso.
	Como assim?
	No sei.  como se, de repente, quisesse viver duas vidas diferentes por causa de seu... nosso beb. Antes de retornar aqui e saber que era pai, tinha certeza de que iria encontrar uma moa adequada e de sangue azul, embora talvez no to depressa quanto deseja meu pai. Iria assumir o trono mais tarde e, se um dia viesse a me apaixonar por algum, procuraria mant-la a meu lado enquanto...
	Quer dizer, manter uma amante, alm de sua esposa real?
Allison sentia-se chocada, embora soubesse que isso era comum entre nobres que ditavam suas prprias regras.
	Sim  admitiu Jacob.  Meu casamento seria apenas poltico.
Encarou-a, esperando por uma reao.
Allison encontrou o olhar sombrio, tentando entender o estranho modo de o prncipe raciocinar. De sbito, sentiu uma onda de revolta.
	No, Jacob. Jamais poderia viver tal mentira!
	Tais procedimentos so bem acatados entre a aristocracia. Poderamos at viajar juntos. E Cray...  este o nome dele, no ? Cray teria tudo do bom e do melhor. Viveriam em uma linda casa, sem jamais se preocuparem com dinheiro para as necessidades e educao. E eu passaria todo o tempo possvel com vocs dois e...
Allison o fez calar-se, colocando os dedos sobre seus lbios, cheia de tristeza.
Jacob era um solitrio, embora no soubesse, e estava destinado a viver uma vida sem um amor sincero e uma companheira leal porque as regras de seu mundo eram diferentes. Sentiu piedade, porm tambm se ressentia da proposta velada que recebera.
	Jamais poderia viver assim  repetiu.  No importa o que permita sua sociedade sofisticada. Como iria explicar a Cray quando crescesse? E o que dizer a meu pais? Que era amante de um homem casado e pretendia viver a sua sombra o resto da vida? So pessoas comuns e sensatas que me educaram para acreditar no casamento e na fidelidade. Dois anos atrs pensei que...
	Pensou que estvamos apaixonados e que iramos nos casar?
	Sim. Mas j entendi tudo, de modo que...
Jacob inclinou-se a fim de tomar-lhe as mos em meio s almofadas do grande sof.
	Desculpe, Alli. Lamento tanto... No tive a inteno de jog-la nesse rodamoinho.
Allison levantou-se. Tudo j fora dito e no havia como aliviar a dor. Cada qual desejava coisas muito diferentes.
	No v ainda  pediu Jacob.
Allison baixou os olhos e viu o que mais temia: desejo e luxria no olhar de Jacob. Ele a puxou de volta ao sof.
	Fique mais um pouco. A tripulao... Thomas... esto todos ocupados e no viro aqui. Tranquei a porta.
	No posso...
s lbios de Jacob beijavam-lhe os dedos, e Allison recordou como era maravilhoso quando faziam amor. Fora to feliz ento...
	Fui o primeiro homem em sua vida, no fui?
	Sim...
Um ano atrs ou mesmo um ms, jamais admitiria isso a Jacob, mas naquele momento se sentia incapaz de negar a verdade. Os lbios ardentes comearam a beijar-lhe os ombros.
	E depois?
	Ningum...
Allison mergulhou em um mar de sensaes deliciosas. A sala comeou a rodar, fazendo-a flutuar sem meios de fugir. E, na verdade, no desejava escapar de Jacob. Ansiara por cada toque que sentia naquele instante, no corpo ardente. Nada mais existia alm daquele momento.
O prncipe deslizou a mo at a nuca macia, e Allison no resistiu. Fazia tanto tempo que no era amada... E durante aqueles dois anos, s desejara Jacob.
Os muitos meses de solido, a responsabilidade materna, o trabalho na biblioteca e a rotina do dia-a-dia a haviam ajudado a esquec-lo. Houvera momentos felizes. Como no haveriam com um beb em casa? Mas amar o filho, a irm e os pais no era o mesmo que ter um companheiro a seu lado.
Fora isso que pensara sobre Jay, o rapaz que a encantara na praia, em um dia ensolarado. Acreditara que fosse sua alma gmea, mas a realidade era o que tinha a sua frente: Jacob, prncipe de Elbia e playboy declarado.
Realidade... fantasia... tudo parecia misturar-se. Com um suspiro, deixou que a voz, as mos e os lbios de Jacob a fizessem esquecer tudo.
Sentiu que ele desabotoava-lhe as roupas, com gestos rpidos, revelando o suti e abrindo-o tambm. Os seios surgiram, tmidos e brancos, os mamilos escuros e rgidos. A redescoberta da paixo era ainda mais deliciosa.
	 linda... toda maravilhosa. Amamentou Cray?
	Sim...
Jacob acariciou-lhe um dos mamilos e cobriu-o com os lbios vidos.
Allison enlaou-lhe o pescoo.
	Por favor, Jacob...
De imediato, sentiu que a soltava, dizendo:
	E a morte para mim deix-la neste momento...
	No foi isso que quis dizer! No pare!
Incapaz de expressar-se em palavras, Allison acabou de despir-se. Jacob no precisava de outro convite. Em seguida, tirou a prpria roupa e deitou-se sobre ela
	Sim, Jacob, por favor... agora...
Allison no se importava com mais nada. Tremeu ao sentir-lhe os lbios deslizarem entre os seios intumescidos, descerem at o ventre e, por fim, deterem-se entre as coxas rolias.
Enlaou-lhe os ombros musculosos com as pernas, presa a ondas cada vez mais fortes de prazer.
Os movimentos erticos dos corpos eram instintivos. Ambos eram parceiros na dana eterna da paixo. Allison entregou-se com toda a liberdade.
Jacob a fez repousar os quadris sobre as almofadas e, de modo delicado, penetrou-a com movimentos rpidos.
 Voc  minha, Alli...
E provou o que dizia, enviando labaredas ardentes por seu corpo, fazendo-a esquecer do mundo ao redor.

CAPITULO IV

Jacob abriu os olhos, e viu Allison enrodilhada a seu lado, as longas e lindas pernas confundindo-se com as suas.
	Meu Deus!
Virou a cabea para o outro canto, aborrecido consigo mesmo pelo que fizera. Estava atrapalhando a vida de Allison outra vez! Estivera to fora de si que at se esquecera da camisinha na mesa ao lado do sof. Entretanto, no podia negar a alegria de ter feito amor com ela outra vez.
Depois de seu romance na praia, tudo havia mudado. Por certo, satisfizera e encantara muitas outras mulheres, porm sempre saa da cama insatisfeito.
Encarou Allison que abrira os olhos.
	Desculpe-me  Jacob soou brusco, sem saber o que dizer.
 Isso no deveria ter acontecido.
Em seguida, rolou para o lado do sof e sentou-se, o rosto entre as mos.
Muitas vezes, nem mesmo precisava fazer a corte a uma mulher. Thomas conhecia seus gostos e, se o via olhar duas vezes para uma jovem em uma festa, encarregava-se de mandar-lhe flores e convites, poupando o trabalho ao prncipe.
Allison Collins fora uma exceo. O prprio Jacob tratara de conquist-la.
 claro, quando Thomas voltara das frias, ignorara o que acontecera na praia e continuara a providenciar lindas e educadas jovens para entretenimento do prncipe.
Sentindo uma onda de vergonha, Jacob ficou de p, colocando a cala com raiva.
Levante-se!
Allison encarou-o, espantada, e perguntou:
O que disse?
A agressividade nas palavras fez Jacob ficar alerta. Esperara lgrimas, palavras sentidas, e preparara-se para uma cena bem feminina. Uma voz malvola em seu ntimo dizia que se Allison sobrevivera uma vez, sobreviveria outra. Jacob von Aus-terand viera a Nanticoke com um propsito e o cumprira.
Reencontrara Allison e a possura. Fora o que dissera a Thomas que pretendia fazer. Agora poderia prosseguir com sua vida. Casaria com uma aristocrata, e manteria dezenas de belas amantes. Que homem no o invejaria?
Porm, Allison no estava chorando, nem atirando objetos em sua direo ou gritando. Apenas o encarava como se ele fosse um inseto horroroso que houvesse cado do teto.
 O que disse, Jacob?
Engolindo em seco, o prncipe pegou a camisa e vestiu-a.
	Disse para se levantar. E hora de ir embora.
	E mesmo?
	Sim. Falou que precisava ir  meia-noite.
	Creio que foi antes de nossa discusso ter se transformado em algo fsico.
	E da?
	Ora, Jacob! O que aconteceu aqui, h pouco, no foi apenas sexo! No diga que sempre age assim!
O prncipe riu sem vontade, atirando-lhe a calcinha e encarando-a.
Allison segurava as roupas contra os seios ainda tmidos, fazendo-o sentir que o desejo renascia com renovado furor.
	Como pode saber, Allison? Nem sempre esteve a meu lado.
	 verdade, mas tenho um forte sexto sentido.
	Est enganada! No tente ver alm do que aconteceu. Admitiu que nunca esteve com outro homem. No tem experincia. Foi apenas sexo, meu bem!
	No ouse me agredir em nome de minha ingenuidade!  Allison gritou sem se importar com escndalo.  Apenas porque no pulo de cama em cama pelos cinco continentes, no significa que no entenda o am...
	Amor?  completou Jacob com desdm.  Ento  isso que pensa? Que nos amvamos dois anos atrs? Foi apenas um romance de vero, nada mais.
	Ento, por qu?
Allison ilustrou as palavras, apontando para o sof, as almofadas e peas de roupa ainda espalhadas pela sala. Jacob sentiu que enrubescia. Respondeu:
	Atrao sexual...
	Compreendo...
O prncipe fechou os olhos com fora, sentindo a dor de Allison e a sua prpria. Mas, o que restava a fazer alm de arranc-la de sua vida para sempre?
Desejou sair dali, para longe do clima de paixo que ainda pairava no ar e que o atraa como um im. Sentia, ao mesmo tempo, desejo de livrar-se de Allison e a sensao de ser o mais abjeto dos homens.
	Esperarei l fora, Allison. H toalhas e sabonete no banheiro.
Antes de terminar de falar, j subia correndo para o deque superior.
Os funcionrios do bufe haviam terminado o trabalho e se retirado, assim como os membros da tripulao. Thomas estava na popa, fumando um charuto, observando os reflexos da lua sobre as guas. Perguntou, sem emoo:
	A jovem vai precisar da lancha?
	Sim.
	Estranho... Ouvi-a falar muito alto h pouco, e parecia contrariada com voc.
	Sei disso.
	A maioria sai daqui contente.
	 verdade.
	Deu-lhe um presente de despedida?
	No aceitaria.
	Srio?
Jacob resmungou, debruando-se na amurada e olhando para a praia.
	Comprei um vestido para que usasse hoje, na festa.
Custou mais caro do que o carro que possui. Preferiu usar sua prpria roupa e devolveu-me o Givenchy enrolado em uma sacola.
Thomas disfarou um sorriso.
Ela  diferente das outras, no , Alteza?
Sem esperar resposta, pegou o celular e falou de modo breve, desligando em seguida, e comunicando:
O rapaz da lancha logo estar aqui, meu senhor.
Jacob ignorou o tom de reprovao na voz de Thomas. Sentia
a cabea e os membros pesados. Allison partiria naquela noite, e nunca mais a veria. Mesmo que implorasse para que ficasse, sabia que a resposta da jovem seria negativa, depois do modo como a tratara.
	Thomas, h algo que precisa saber.
	Sim?
	Allison me odeia. Deu  luz um menino, cerca de um ano e meio atrs.  meu filho.
Aguardou pelos comentrios do amigo, qualquer coisa irnica, engraada, chocada... Por fim, enervado pelo silncio, voltou-se.
Thomas apagou o charuto e encarou-o, fazendo mais uma afirmao que uma pergunta:
	Tem certeza de que a criana  sua, meu senhor?
	Sim. Allison no mentiria. Deu-lhe o nome de Cray. Nem mesmo o vi, mas acredito nela.
	Ter de contar ao rei.
	Por qu?
	 uma situao delicada. Poder trazer-lhe problemas. Disse que se trata de um menino. Legtimo ou no, ele ou a  me podero reivindicar o ttulo.
	Mas Allison no possui uma gota de sangue azul...
	Consultaremos os advogados de seu pai. De qualquer modo, o rei deve ficar sabendo. Ficar muito ansioso pelo aguardo de sua escolha, depois dessa novidade.
	Minha escolha?
	Uma esposa. Lembra-se, meu senhor? Antes do fim do ano. Ainda h tempo para um casamento no Natal. Ser conveniente para a tradio dos von Austerand.
Ouviu-se o rumor da lancha aproximando-se. De sbito, Allison surgiu na escada e cruzou o deque de lbios cerrados, os olhos brilhantes de raiva. Nem mesmo dirigiu um olhar aos dois homens, de p na popa.
Jacob viu-a descer para a lancha, os longos cabelos loiros brilhando ao luar, sentindo que algo era arrancado de sua alma. Deu as costas.
Allison olhou para o despertador na mesa-de-cabeceira. No se importara de dar corda na noite anterior, sabia que Cray a despertaria. Alm do mais, no esperara dormir muito, depois da festa no iate.
Podia ouvir Cray mexendo-se no bero, no quarto ao lado.
 Vinte e oito de setembro  murmurou. E amanh ser vinte e nove, e depois trinta...
Pensar em termos concretos a fazia encarar com mais calma o dia em que Jacob a abandonara... pela segunda vez.
Uma brisa fria sacudiu as cortinas da janela, fazendo-a lembrar-se que o vero terminara. Mas o frio que sentia nos ossos no era devido apenas  aproximao do inverno. O olhar glido de Jacob, enquanto se vestia e saa da cabina, continuava em sua mente, destruindo a doce lembrana dos poucos minutos de alegria que tivera em seus braos.
Deixara-a outra vez, depois de faz-la mergulhar em um mar de paixo. Jamais seria to tola de novo. Daquele dia em diante, nenhum homem conquistaria seu amor sem merec-lo. Teria orgulho suficiente para ser forte.
Encarou o dia com coragem. Ligou para a biblioteca e avisou que estava doente. Precisava pensar, mas no ficaria dentro de casa, sentindo pena de si mesma. Passaria o dia com Cray, apenas os dois. Foi ao supermercado e depois parou em uma loja onde comprou um carrinho sofisticado para o filho, gastando o que no podia.
Vestiu Cray com roupas simples e foram para a praia. Algumas embarcaes estavam na marina, mas a enseada encontrava-se deserta. O Rainha Elise fora embora.
Em meados de novembro, aconteceu a primeira nevada em Connecticut. Certo domingo, Allison convenceu Diane a preparar os trs filhos e ir com ela e Cray para o norte.
Encontraram um parque pblico e l brincaram com a neve, por duas horas. Cray no parava de rir, entusiasmado, caindo diversas vezes com o rosto no solo todo branco. Os primos mais velhos mostraram-lhe como fazer uma bola de neve. No caminho para casa, cantaram msicas ingnuas e pararam na estrada para um lanche de tortas de framboesa com calda, caf para Allison e Diane e chocolate quente para a crianada. Aquele dia fora um raio de sol para Allison, depois de meses de muito sofrimento. Afinal, a vida podia ser alegre e divertida tambm.
	Vamos entrar um pouco?  pediu Diane, quando Allison
aproximou-se da casa da irm.  Gary vai demorar a chegar.
Est remodelando uma cozinha.
Gary, o marido de Diane, era empreiteiro de obras. Ambos trabalhavam muito, e o casamento ia bem, o que deixava Allison contente.
	Cray est exausto.  melhor irmos para casa, Diane.
	Poder deit-lo em minha cama. Vamos mandar a crianada brincar no quintal e tomaremos uma xcara de ch com tranquilidade. Quero mostrar-lhe a colcha que estou fazendo.
	Ento, est bem.
Percorreram mais algumas quadras e fizeram a curva. Espantada, Allison viu uma limusine preta estacionada em frente  casa de Diane.
	Parece que um de seus vizinhos planeja uma grande noite...
	Nossa!  Diane soltou um assobio.  A filha dos Robinson vai se casar, mas no sabia que era hoje.
Entraram na casa, Allison acomodou Cray, e Diane mandou as outras crianas para o quintal.
Allison tirou as botas e o casaco e caminhou para a cozinha pr a chaleira no fogo, enquanto Diane colocava roupa suja na mquina de lavar. Ouviu-se uma batida na porta.
	Pode deixar que eu atendo, Diane!
Allison abriu a porta, e o sorriso gelou em seus lbios.
	O que deseja?
Jacob postava-se na calada, vendo-a s de meias, o rosto sem maquilagem e vermelho de frio. Pediu, com voz seca:
	Posso entrar, Allison? Precisamos conversar.
	J dissemos tudo que havia a dizer.
	 sobre seu... nosso filho.
Allison ficou gelada de terror. "Nosso filho..." Aquelas palavras pareciam carregadas de ameaa.
	Cray  s meu! V embora!
Teria batido com a porta em seu nariz, caso Jacob no tivesse colocado o p adiante, bloqueando o caminho com os ombros largos.
Diane entrou na cozinha, e Jacob aproveitou a oportunidade para entrar na casa, apesar dos esforos de Allison para impedi-lo. Usava casaco de plo de camelo, cala preta e sapatos de lona aparentemente muito caros. Os cabelos negros estavam penteados para trs, enfatizando os irresistveis olhos escuros.
Diane pigarreou com delicadeza.
	Convidou este cavalheiro a entrar, mana?
	Lamento ser to rude, senhora, mas tinha que encontrar Allison e um dos vizinhos disse que estaria aqui. Estou esperando h vrias horas.  Hesitante, estendeu a mo enluvada.
 Sou Jacob von Austerand. Talvez Allison tenha falado a meu respeito.
Diane inclinou a cabea para um lado, analisando o rapaz alto e elegante a sua frente, antes de apertar-lhe a mo. Por fim, sorriu com suavidade.
	Sim, disse algumas coisas a seu respeito, mas no desejo repeti-las.
	Lamento que meu relacionamento com sua irm no tenha sido muito bom.  quase tudo culpa minha.  Voltou-se, de repente, para Allison.  E  por isso que estou aqui.
	Verdade? Mal posso esperar para "ouvi-lo. A primeira vez ficou por dois meses. A segunda... trs dias? Hoje tem algumas horas livres antes do prximo vo, Alteza?
Diane comeou a mexer no armrio de loua, perguntando:
	Querem que saia para conversarem a ss?
	No!  gritaram Allison e Jacob ao mesmo tempo.
	Acho bom termos uma testemunha  suspirou Jacob.
	Nada tem a dizer que me interesse ouvir.
	Mesmo que o futuro de seu filho esteja em jogo?
Allison olhou para Diane que murmurou com voz tensa:
	Se veio aqui com a inteno de ameaar minha irm, pode sair agora mesmo, senhor. J a fez passar maus bocados. Isso tudo pode apenas ser um jogo para pessoas de seu meio, mas somos gente simples, e a famlia significa muito para ns  Diane baixou a voz, sufocada pela raiva.  Cray  filho de Allison, que por sua vez no tem marido. Nenhum homem veio reclamar a paternidade nos ltimos dezessete meses. Se pensa que...
	Por favor, senhora! No vim fazer ameaas nem desejo magoar algum. Mas tenho um srio problema, assim como Allison... embora ela ainda o desconhea. Precisamos discutir um modo de resolver a questo.
	Meu nico problema  voc!  replicou Allison.  Se ficasse fora de minha vida, estaria tudo timo!
	No parecia "tima" a ltima vez que nos vimos.
Allison engasgou. Como ousava lembr-la daqueles momentos ntimos e na frente de Diane?! Que desplante faz-la ver que sabia como adorara cada instante em seus braos, como era carente de afeto...
Mas a irm permanecia calma, como se tivesse resolvido ficar impassvel, ouvisse o que ouvisse. Percebendo que o visitante, bem-vindo ou no, pretendia ficar, Diane encheu trs xcaras de ch. Allison puxou uma cadeira, e sentou-se com raiva, comandando:
	Fale!
Jacob tirou as luvas e o casaco, e sentou-se tambm, encarando-a com seriedade.
	Jamais vi meu filho. Est aqui?
Allison no respondeu.
	Sim, est  continuou ele com firmeza.  No vou agarr-lo e sair correndo, prometo. Jamais faria isso.
O simples pensamento de perder Cray trouxe lgrimas aos olhos de Allison.
Diane fez um movimento de retirada.
	Vou para a copa...
	Sente-se!  ordenou Jacob.
Com uma humildade que no era sua caracterstica, Diane sentou-se, lanando um olhar sombrio para o prncipe que continuou de modo mais brando:
	Allison precisar da senhora.  Olhou em torno da cozinha aconchegante, em tons de branco e vermelho, e aquele ar domstico pareceu dar-lhe foras para prosseguir.  Temos um problema. Ter sua vez de falar, Alli. Em alguma ocasio prometi algo a voc?
Allison pensou um breve instante.
	No.
	Dois anos atrs, quando nos conhecemos, no prometi que ficaramos juntos nem que nos casaramos. Voc imaginou essas coisas. S fao promessas quando sei que posso cumpri-las. Allison engoliu em seco, pressentindo que o que iria ouvir a seguir, mudaria sua vida.
	Agora vou fazer uma promessa  disse Jacob de modo solene.  Pensei muito antes de vir aqui.
	No quero ouvir mais nada  interrompeu Allison.  J me explicou sobre as tradies de sua famlia. Os homens se casam por motivos polticos e depois arrumam amantes. Bem, minha famlia  um tanto diferente.  Olhou para Diane que estava com os olhos arregalados.  As mulheres da famlia Collins esperam que seus homens se casem por amor e permaneam fiis. No serei sua amante, Jacob, sejam quais forem os benefcios que oferea. Portanto, pode ir embora.
Diane ergueu-se em silncio, deu volta  mesa e postou-se atrs de Allison, a mo em seu ombro, em um gesto de solidariedade contra o inimigo. Ouviu-se um choro leve de criana.
	 ele?  murmurou Jacob.  Por favor...
	No serei sua concubina, e Cray vai ficar aqui comigo!
	J disse que no pretendo rapt-lo.
Allison hesitou um instante.
	Est certo.
Relutante, levou Jacob at o quarto de Diane e Gary. No meio da enorme cama, estava sentado o menino com olhos castanho-escuros e brilhantes, os cabelos tambm castanhos, porm com reflexos dourados como os da me.
Jacob ficou no umbral d porta, o olhar fixo em Cray, apertando as luvas entre os dedos. Sussurrou:
	Meu Deus, como  lindo!  saudvel? Feliz?
	Perfeito  respondeu Allison, sentindo, horrorizada, que um sorriso comeava a despontar-lhe no rosto, e tratando de apertar os lbios.  J o viu. Pode ir embora agora.
Jacob entrou no quarto.
Acha que deixar que o abrace?
 muito carinhoso, mas vai amarrotar sua roupa.
Jacob aproximou-se da cama.
	Para sua informao, no vim lhe pedir que seja minha amante. Vim para propor casamento.
O quarto comeou a girar. Os joelhos de Allison vacilaram.
Caiu sentada na beira da cama, enquanto Cray observava as luvas nas mos do estranho.
	Quero que se case comigo e que venha viver em Elbia.
Allison balanou a cabea, sem conseguir acreditar no que ouvia. Aquilo tudo devia ser um sonho. Jacob parado no meio do quarto de Diane... Cray olhando, fascinado, para as luvas... Proposta de casamento?! Precisava acordar. Abriu e fechou os olhos, de modo decidido.
Jacob continuava l, estendendo a luva em direo de Cray que comeava a engatinhar para o estranho objeto. A mozinha rechonchuda agarrou o novo brinquedo, e Jacob sorriu, parecendo encantado com a fora do menino. Por fim, deixou que Cray segurasse a luva, e a criana enfiou um dos dedos de couro na boca rosada.
	 um tanto complicado  comeou o prncipe  mas ir satisfazer nossas necessidades e o bem-estar de Cray.
Allison fez meno de pegar o filho, porm Jacob inclinou-se e, depressa, ergueu-o nos braos. Cray mantinha-se to interessado no novo brinquedo que nem percebeu estar no colo de um estranho. Allison sentiu um frio na espinha. Como fora fcil para Jacob seduzi-lo! Ser que o beb sentia que aquele homem era seu pai?
	Cray ter seu bem-estar garantido se ficar aqui comigo em Connecticut.
	Continua achando que sua vida no ir mudar  disse Jacob em voz baixa, com medo de assustar o menino.  Mas mudar, lamento dizer. Por isso preciso falar com voc hoje, e explicar o que aconteceu.
Jacob comeou a passear pelo quarto, carregando Cray que estudava o rosto estranho, sem demonstrar receio. Acariciou-lhe a cabecinha. Allison sentiu um n na garganta ao ver pai e filho juntos. Entretanto, as palavras que ouvira continuavam a assombr-la.
	O que significa essa histria de que minha vida vai mudar?
	Tive de contar ao rei, meu pai, a nosso respeito e sobre Cray. Ele precisava saber que tinha um neto. No poderia arriscar que soubesse por outras fontes e passasse mal. Isso o mataria. Tem uma sade fraca, e havia tambm consideraes polticas em jogo. Cray  meu primognito. Mesmo que me casasse com uma nobre, nesse instante, de acordo com os advogados de minha famlia, Cray tem direito ao trono.
	Bem, no precisa se preocupar com isso  interrompeu Allison, aproximando-se para pegar o menino.  Jamais iria atrs de sua preciosa monarquia.
Cray afastou-se dos braos maternos, enterrou o rosto no pescoo de Jacob e riu das tentativas de Allison em agarr-lo, fazendo-a pensar, irritada, que, bem naquele dia, o garoto resolvera ser amigvel demais. Jacob beijou a cabecinha do filho, dizendo:
	Entendo o que diz, porm o que acontecer quando Cray crescer? Ter seu modo prprio de pensar. Pode resolver que  justo reclamar o trono. E se alguma coisa acontecesse com voc? Se Cray tivesse de ser criado por outra pessoa? Voc no poderia controlar o que fariam se soubessem que  um rico herdeiro.
	Isso  loucura! Muita gente nem sabe da existncia de Elbia!
	Mas Elbia existe. E Cray  meu herdeiro o que o torna dono de uma grande fortuna. Porm, isso  s metade do problema. Voc enfrentar uma situao difcil se permanecer em Nanticoke.
	Do que est falando? E claro que vou ficar aqui!
Jacob olhou-a com seriedade.
	Vazaram informaes a seu respeito e de Cray para a imprensa. No est claro como isso aconteceu, mas fomos notificados, por amigos na Inglaterra, que a histria ser publicada no Times de Londres amanh. Dentro de vinte e quatro horas, o mundo saber a nosso respeito. O nobre solteiro mais rico da Europa, sua amante bibliotecria americana... e seu filho ilegtimo. Ser perseguida por reprteres, a vida de sua irm e de seus pais se tornar um inferno, tero de fugir, o tempo todo, do assdio de fotgrafos e cmaras. E Cray? Crescer sem ter uma vida privada, sem uma infncia normal... e cercado pelo escndalo.
	Escndalo! Artistas de cinema mudam de marido todos os meses! Por que iriam se importar comigo e meu filho?
	Ponha a cabea no lugar, Alli! Essa  outra histria! Um escndalo na nobreza! Sua famlia nunca mais viver com tranquilidade. O que nos resta a fazer  evitar ao mximo o lado escandaloso, e tornar a novidade o menos interessante possvel aos olhos do pblico.
Allison olhou para Cray com lgrimas nos olhos, vendo-o chupar a ponta da luva.
	Como? O que fazer agora que j sabem?
Doa-lhe pensar sobre os problemas que sua vida pessoal causaria aos pais. Eles a haviam ajudado muito durante a gravidez e apoiado sua inteno de permanecer com a criana. Mas ficariam magoados com os comentrios de amigos.
	Que posso fazer?  choramingou.
Jacob ps Cray sobre a cama de novo, entregando-lhe o par de luvas.
	Conte uma pequena mentira, Allison.
	Que tipo de mentira?
	Casaremos hoje  noite. Uma nota ser enviada  imprensa mundial, declarando que estamos casados secretamente h trs anos. Escolhemos no tornar o casamento pblico porque voc no era nobre, e haveria problemas com minha famlia.
	Perfeito! E nesses ltimos trs anos, voc pulou de cama em cama com todo rabo-de-saia que encontrou! Ningum acreditar que tinha uma esposa americana, porque as mulheres de meu pas no aceitam esse tipo de comportamento com facilidade!
	Ficaria surpresa em saber como as pessoas acreditam em qualquer histria bem contada. Basta dizermos que meus romances, nos ltimos anos, faziam parte do plano de manter nosso casamento em segredo. O importante  distrair a imprensa algum tempo com a descoberta de um casamento secreto. Haver muitas entrevistas, reportagens e coisas assim, mas j temos uma equipe de secretrias trabalhando para dar todas as respostas aos jornalistas, sem nos envolver de modo direto.
	Percebe como tudo isso  absurdo, Jacob?
	Acredite-me, Alli, ser melhor lidar com o absurdo do que com a notoriedade de ser rotulada como me de um prncipe bastardo. Ou tomamos medidas drsticas e rpidas, ou voc, Cray e sua famlia nunca mais tero paz. Por outro lado, o casamento ir legitimar nosso filho e nos tornar um casal comum. Ficaremos em evidncia algum tempo, e depois a imprensa se cansar e ir procurar assuntos mais picantes. Sei que est ressentida comigo, mas sinto o mesmo a seu respeito.
Allison percebia a lgica daquilo, mas surpreendeu-se com as ltimas palavras.
	Ressentido comigo?! Mas, eu no fiz nada...
	Fez, sim, senhora. Aquele vero que passamos juntos me transformou em outra pessoa. Esqueci minhas obrigaes e responsabilidades por sua causa!
	Quer dizer que um dia Cray ser... rei?
	No. Como voc  plebeia, no est garantido que Cray me suceda. H muita complicao legal envolvida. Porm o plano  que nos divorciemos depois de certo tempo. Um ano, mais ou menos... e ento me casarei de novo.  Jacob encarou-a com ateno.  No ter de ficar casada muito tempo com o homem que odeia.
Allison sentiu uma dor intensa no corao, mas estava por demais esgotada para continuar discutindo.
	Compreendo, Jacob. Faremos do jeito que prope.

CAPITULO V

	Allison concordou  disse Jacob, j entro da limusine.  Esperei enquanto dava os telefonemas necessrios.
O velho de olhar agudo balanou a cabea, satisfeito, dizendo em alemo:
 Pena que tivesse que chegar a esse ponto. Por infelicidade, ter que se casar com essa mulher.
Jacob no gostou da anlise fria de Frederick, conselheiro do pai.
Thomas dirigia a limusine e, embora no tivesse sido envolvido de modo direto nas discusses das ltimas horas, dera vrios conselhos em particular.
De incio, Jacob pretendera apenas levar Allison e o filho para Elbia, a fim de proteg-los da imprensa. Mas os conselheiros do rei haviam previsto problemas se mantivessem a amante e o filho ilegtimo no pas europeu, com Jacob continuando a procurar esposa. Fora Thomas quem dera a ideia do breve casamento. Frederick e o rei teriam preferido que Jacob repudiasse Allison e Cray, mas o prncipe recusara-se a fazer tal coisa. Ento, aps muito debate, concluram que o plano de Thomas era o melhor para o momento.
Jacob odiava a ideia de viver uma mentira, mas era o nico modo. Entretanto, no ntimo, estava contente; pelo menos, poderia ficar ao lado de Alli e do menino.
Agora que tinha a cooperao de Allison, deveriam dar o prximo passo. A jovem seria levada a Nova York para o escritrio de um juiz amigo do rei de Elbia. Depois da cerimnia de casamento, deveriam agir com muita cautela para evitar suspeitas da imprensa.
No se preocupe, Alteza  disse Frederick.  Dentro de poucos anos, ningum mais ir se lembrar dessa mulher.
Jacob estremeceu diante daquele comentrio. Seria verdade? Frederick continuou:
	A cerimnia ser breve e simples. Est tudo arranjado.
Jacob pareceu surpreso.
	Como? Allison s concordou em se casar comigo alguns minutos atrs!
O velho riu.
	Para um homem to experiente com mulheres, Jacob, s vezes  bastante ingnuo. Que moa recusaria tal oferta? Depois do divrcio, ela e o filho estaro amparados at o fim da vida. Falou-lhe sobre o dinheiro?
	No.
	E por qu?
	Precisava saber se aceitaria minha oferta sem suborno. No sei muito bem por que era importante, mas preferi assim.
	Tanto faz. O principal  que a situao agora est sob controle e temos documentos declarando que o casamento j dura trs anos. E sobre a famlia da moa?
Jacob suspirou.
	Fiquei junto a ela quando falou com a irm e com os pais pelo telefone. Quanto aos amigos, nunca souberam quem era o pai, portanto nada tinha a explicar.
	Maravilha!  Frederick estava muito satisfeito.  No ano que vem, por essa mesma poca, estaremos tratando do divrcio. Ento, voc ficar livre para se casar, por exemplo, com a condessa di Taranto. O pai da jovem ficaria radiante.
	Deus! At isso vocs j providenciaram? Parece que a pobre condessa  uma bezerra premiada em exposio!
	No podemos correr riscos, portanto  necessrio sermos prticos. Estamos falando de preservar a dinastia de sua famlia. Por isso, dever casar-se, dentro da lei, com a americana, e divorciar-se tambm dentro da lei. Ela ter de assinar do cumentos abrindo mo dos direitos do filho ao trono.
Jacob sentiu uma onda de dio e nojo. No momento, devia proceder como ordenavam, mas tinha suas prprias ideias para o futuro. Apenas o tempo diria se seu plano daria certo.
Flocos de neve caam de um cu cinzento de inverno. Jacob sentia-se inquieto. Uma voz fria soou as suas costas:
Estou pronta.
Voltou-se para encarar Allison. Usava um vestido cor-de-rosa de gola alta e, como jia, dois aros de ouro em volta do pescoo. Os cabelos loiros estavam penteados para trs e soltos nos ombros.
Jacob comparou-a com Cinderela. Aproximou-se e, por instinto, tentou abra-la, mas Allison afastou-se.
	No, Jacob! As coisas j esto difceis. No as piore!
	Desculpe-me. E que voc est to...
	Espero que assim esteja bem  interrompeu Allison.  No seria prprio usar branco, seria?
	No. Devemos estar em nossa segunda lua-de-mel.
	Certo, voc j explicou.  hora de partirmos?
	Sim. Deixou Cray na casa de sua irm?
Allison aquiesceu.
	Diane cuidar dele at amanh quando voltarmos. Onde ser a cerimnia?
	No escritrio de um juiz em Manhattan.  um velho amigo de meu pai.
	Que conveniente!
Jacob sentiu um certo alvio ao ouvir o comentrio sarcstico, sinal de que o antigo esprito de luta no a havia abandonado.
	Passaremos a noite em uma sute que minha famlia mantm em Park Avenue. De manh, antes de partirmos, po deremos dar um passeio por Nova York, se quiser...
Allison franziu as sobrancelhas.
	E os reprteres?
	Nunca esto longe de celebridades. Ir acostumar-se. Nosso plano  dar apenas as informaes que desejamos que obtenham. No vieram atrs de mim em Nanticoke porque de nada desconfiavam. Mas amanh, depois da notcia no Times, tudo ser diferente.
	O que deverei dizer se comearem a fazer perguntas?
	No fique preocupada. Ensaiaremos no caminho. Alis, iremos em seu carro.
	O qu?! Nada de limusines? Como voc ir sobreviver?
	Nada de limusines.  Jacob ignorou a ironia.  Quanto menos ateno chamarmos at termos a certido de casamento nas mos, melhor.
Allison insistiu em dirigir seu velho carro. Fora-lhe fiel por dez anos embora, nos ltimos tempos, estivesse com srios problemas de motor.
Tomou o caminho para Nova York. Viajaram por muito tempo sem trocar palavra. Allison sentia que Jacob estava tenso. De vez em quando, surgiam casas na estrada, decoradas para o Natal.
Dois anos atrs, quando Jacob a deixara, pensara que iria morrer, mas sobrevivera e tornara-se mais forte com a experincia. Depois, ele regressara e voltara a sumir por mais dois meses. Dessa vez, porm, iriam viver como marido e mulher... no sabia por quanto tempo, mas tinha certeza de que seria abandonada de novo, portanto precisava resguardar-se para no voltar a sofrer tanto.
	Prometeu que ensaiaramos meu discurso  disse, de modo abrupto.  Estive pensando. Bibliotecria  uma profisso muito sem graa. Que tal dizer que sou uma danarina que conheceu em uma festa de solteiros?
Jacob encarou-a e, por um instante, pareceu despi-la com os olhos, fazendo-a corar.
	Sim  respondeu, por fim, desafiando-lhe o olhar.  Teremos que ensin-la a mentir sem ficar corada.
J era quase noite quando estacionaram junto ao elegante complexo de lojas e hotis.
Pelas duas horas seguintes, tudo pareceu girar em torno de Allison. Parecia estar sendo sugada pelos acontecimentos. Foram levados a uma cobertura. Jacob tomou-lhe o brao e passaram por alas decoradas com luxo, com tapearias antigas nas paredes. Para onde olhava, via ostentao e riqueza.
Allison sentou-se em um sof, imvel, tentando respirar com calma. Jacob falava ao telefone. Depois ele a fez acompanh-lo e entraram em um txi que os levou, em corrida desabalada, at um escritrio perto das Naes Unidas.
Ali, um homem que Jacob chamou de juiz Resnicek, fez uma srie de perguntas estranhas  Allison as quais ela respondeu sem nada entender. A inteno do juiz era saber se iria assinar o documento de matrimnio de livre e espontnea vontade.
E que escolha teria, pensou consigo mesma, um n na garganta, as mos suadas, a boca seca como se no bebesse havia vrios dias. Se no fizesse como Jacob mandara, estaria pondo em risco o futuro de sua famlia. E destruiria a vida do filho.
Por fim, o juiz deu de ombros e colocou um documento na frente de Allison.
Assine aqui. E rubrique ali... e ali.
Allison obedeceu, sentindo a caneta como se fosse um bloco de gelo entre os dedos. Depois, foi a vez de Jacob assinar. Resnicek chamou uma secretria, e ambos assinaram como testemunhas. Tinha acabado. Parecera um ato frio e impessoal, como tirar carteira de motorista, em vez de um casamento, pensou Allison.
Porm, dentro da lei, no sabia por quanto tempo, Allison Collins de Nanticoke, Connecticut, era agora uma princesa real, esposa do prncipe de Elbia.
No se lembrava de ter sado do escritrio do juiz e voltado  sute. Detalhes como a caminhada, a breve corrida de carro, a recepo do hotel cheia de cascatas e chafarizes murmurantes... tudo confundia-se em um s borro.
Viu-se sentada, muito rgida, na beira da cama king size, olhando, aptica, em volta do quarto, e ainda trajando a roupa de viagem. Havia mais dois amplos aposentos que pareciam destinados a reunies de negcios e recepes sociais. Jamais vira tantas flores juntas, como rosas, bocas-de-leo e gladolos em cada canto.
Uma parede de vidro descortinava a viso deslumbrante de Nova York, com seus edifcios altos de encontro ao cu cinzento do incio de inverno. No queria saber quanto custava a diria da sute. Pressentia que ficaria com um n no estmago.
Alis... j se sentia muito mal.
Ouviu passos e ergueu os olhos.
Jacob estava parado a sua frente, sem gravata, a camisa de seda branca desabotoada, revelando o trax musculoso Estava lindo, e Allison fechou os olhos, tentando evitar as sensaes que experimentava.
	Est se sentindo bem?  perguntou Jacob com a voz emocionada.
	Sim... creio.  Forou-se a encarar o rosto moreno a sua frente. Pigarreou e separou as mos cruzadas.  E agora o que acontece?
	 melhor usar isso.  Jacob apresentou um anel de ouro com um enorme brilhante solitrio, centrado entre duas magnficas safiras.
Allison prendeu a respirao e, em seguida, soltou uma risada.
Brincadeira! No  de verdade, ? Por favor, diga que no!
 verdadeiro. Est em minha famlia h cinco geraes.
Allison parou de rir.
	Desculpe-me. No quis ofend-lo. Onde se compra um brilhante to grande?
	No sei ao certo. Jamais precisei sair para comprar um. Foi o anel de noivado de minha me e de minha av. Creio que pertencia s jias da coroa imperial da Rssia, antes da revoluo. O brilhante chama-se Corao de mbar e, se olhar de perto, ver que h chispas cor de fogo no centro.
	Jamais vi uma pedra preciosa com um nome.
Allison fez meno de pegar a jia mas, de repente, recordou-se da noite no iate: quente, ertica... humilhante. Retrocedeu, como se tivesse sido queimada. Jacob franziu o cenho, confuso.
	No  melhor guard-lo para a princesa de verdade?  Allison perguntou, por fim, com voz incerta.  Quero dizer, a tradio no ser destruda se uma plebeia usar as jias da famlia?
	Para mim voc nada tem de plebeia.
Allison encarou-o. Estaria tentando faz-la sentir-se melhor?
	O mundo inteiro saber quem sou, dentro de vinte e quatro horas, se tudo que me contou  verdade. Nada far com que no me vejam como uma bibliotecria de cidade pequena que possui apenas um filho e uma casa na praia. Diro que sou uma caa-dotes.
	No importa!
Entretanto, importava sim, pensou Allison, com um suspiro. Se fosse o contrrio, Jacob no estaria ali, tomando parte naquela farsa.
	Mais alguma dvida antes de colocar esse anel no dedo, Alli?
	Quando os advogados comearo a preparar os papis do divrcio?
Jacob estremeceu como se tivesse sido esbofeteado.
	Creio que logo. Mas no esperam que nos separemos antes de um ano, seno voltaramos a ter um escndalo. 
Allison aquiesceu, balanando a cabea.
	Qual o problema? Faz parte do trato.
	No se trata de tempo, Jacob  respondeu com sinceridade.  Estava s pensando que... no posso usar uma jia to cara. No  direito.
	D-me sua mo!
Allison hesitou, mas Jacob tomou-lhe a mo esquerda com um gesto rpido.
Colocou o anel que pareceu enorme, como se o brilhante e as safiras pesassem uma tonelada. Dever, tradio... o anel queimava o dedo de Allison.
	E lindo  murmurou, afinal, tentando esconder o medo.
 Mas no tenho o direito de us-lo.
Jacob impediu que o tirasse.
	No faa isso! Quero que a vejam com ele.
	Como parte do espetculo?  Allison no conseguiu deixar de soar amarga.  Um anel desses  como essa sute: uma tola despesa.
Jacob parecia estar prestes a perder a pouca pacincia que lhe restava, porm Allison sentia a compulso de fazer-lhe ver o absurdo da situao e evitar, tambm, o deslumbramento.
No ousava comear a acostumar-se naquele mundo luxuoso.
	Imagine quantas crianas famintas este anel alimentaria... quantos doentes curaria. Talvez no esteja acostumado a ouvir essas coisas, nem seja muito sofisticado fazer pouco-caso de tal jia, mas acho isso desprezvel.
	Terminou seu discurso?
Allison acenou que sim com um movimento seco de cabea.
	Agora que insultou minha famlia e a mim,  minha vez de falar, Allison.
Inclinou-se sobre ela, prendendo-a na cama, os olhos ardentes.
	Algum dia irei explicar-lhe a importncia de jias e ttulos no mundo moderno. Mas, pelo momento, princesa Allison, usar meu anel e o esfregar sob o nariz de todos que encontrar, no importa o quo desprezvel seja ser minha esposa. Preciso que o mundo fique logo convencido de que nosso casamento  de verdade.  Beijou-a nos lbios de modo breve e ergueu os olhos que pareciam duas brasas.  Estamos entendidos?
	Sim...
Allison raciocinou que, se no cumprisse sua parte no trato, Jacob no iria sentir-se na obrigao de cumprir a sua, e poderia tomar-lhe Cray. A fria nos olhos escuros do prncipe parecia revelar, naquele instante, uma mistura de emoes: preocupao, receio e, sem dvida nenhuma, desejo.
	Pensa que sou louca, no pensa?  Tentou distra-lo.  O certo seria estar dando pulos de alegria com minha boa sorte. Lamento, mas no sou assim. Muito dinheiro me deixa nervosa.
	Como voc  sensual...
No adiantara tentar distra-lo, pensou Allison.
	Que tipo de homem  voc? Acabei de insultar seus ancestrais e rejeitei tudo que representa. Isso o deixa excitado?
	No. Voc me excita. Qualquer outra mulher que conheo estaria agora calculando como gastar meu dinheiro em compras em Paris, leiles em Londres, almoos em Roma. Age como se possuir mais de cem dlares a deixasse doente. Pode imaginar, tenho certeza de que sim, que princesas em Elbia recebem volumosas mesadas da corte. No seu caso, ser por volta de vinte mil dlares.  Riu, divertido.  Isso vai causar-lhe um n mental, no ? Todas suas despesas, assim como as de Cray, a partir de agora, correro por minha conta,  claro. A mesada  s para roupas, viagens no oficiais, presentes para seus amigos e familiares...
Allison parecia ter parado de respirar. Jacob continuava sorrindo, de modo irnico.
	Pretende abrir mo de tudo isso por causa de sua conscincia de classe mdia?
	No de todo  respondeu Allison, sabendo que Jacob a estava provocando.  Meus pais poderiam consertar o teto da casa na Flrida. E talvez seja divertido ter um ou dois vestidos novos que no foram comprados em liquidao.
	timo.
Assim dizendo, Jacob inclinou-se de novo e voltou a beij-la nos lbios, deslizando para o pescoo.
	Por favor, Jacob... no posso... no quero...
	Tambm no, mas  impossvel me controlar. Quando estamos a ss, preciso beij-la.
Lgrimas rolavam dos olhos de llison.
Acha que disse o mesmo a outras mulheres, Alli?
Ela cerrou os olhos, apenas concordando com um gesto de cabea.
	Jamais falei assim com outra. E nunca disse a uma mulher que a amava.
	A mim tambm no...
	Tem razo.  Enlaou-lhe a cintura.  E jamais direi a no ser que tenha certeza de que so palavras verdadeiras e que sou correspondido.
	E se esse dia nunca chegar?
	Pelo menos saberei que no enganei ningum. Jamais menti para levar uma mulher para a cama, como tambm nunca menti a voc... Apenas omiti certa parte da verdade.
	O que equivale a uma mentira.
	No. E ainda no posso contar-lhe tudo.
	Ento, continuam os segredos?
	Sim. E no apenas para voc. Espero que, um dia, a situao seja diferente. Porm, por enquanto, vamos manter tudo do jeito que est. Confie em mim.
	Confiar? Abandonou-me com um filho... duas vezes.

	Precisa de mim. Use meu anel, seja minha esposa...
Era difcil manter-se firme quando a beijava daquele modo.
	Jacob, por favor...
	Desejo-a mais do que desejei qualquer outra mulher. E isso  verdade.
Allison tomou-lhe o rosto msculo entre as mos.
	Como posso acreditar em um homem com sua reputao?
Diane mostrou-me revistas... fotos...
	Est se referindo aos meus romances? No posso negar que estive com mulheres lindas e famosas. Mas nenhuma chega a seus ps, querida Alli. Nenhuma possui sua alma, generosidade, meiguice...
Os dedos fortes acariciaram-lhe os seios por cima da roupa, e Allison sentiu que perdia a noo de tempo e espao, como uma flor sob um sol escaldante. Soube, antes de envolver-se no turbilho de emoes, que estava perdida.

CAPITULO VI

Essa  sua noite de npcias, sussurrava a voz interior de Allison. A noite com que sempre sonhou, e que agora se tomou realidade, embora de modo estranho.
Sentada na cama, envolvida nos braos de Jacob, sentia-se incapaz de reagir, enquanto as mos hbeis moviam-se por seu corpo.
Talvez tivesse sido uma tola por deixar-se manipular por Jacob e o rei. Por certo, estavam ambos preocupados em aparar as arestas e preparar o terreno para a esposa real. Allison no sabia muito bem como essas coisas funcionavam. Quem sabe, nenhuma condessa, duquesa ou princesa dos dias atuais concordasse em casar com um prncipe que tinha um filho ilegtimo...
Mas, se o nico propsito fosse o de preparar o terreno para o futuro, por que Jacob a estava abraando naquele instante? Por que a beijava de modo to doce, percorrendo-lhe as costas com os dedos, murmurando palavras carinhosas? Aquilo no fazia parte de uma comdia. Ningum precisava saber o que se passava no quarto entre os dois.
Sem dvida, estava apenas tirando vantagem da situao. Dormir com muitas mulheres era um dos esportes favoritos de Sua Alteza Real.
Afastou-se de modo violento, ergueu-se da cama e retrocedeu alguns passos, parando no meio do quarto. Tentou recuperar o flego, encarando-o.
	O que houve, Alli?
	Tudo! Eu... voc... ns dois! E esse lugar onde fico sempre com medo de esbarrar e quebrar algo precioso.
Jacob seguiu-lhe o olhar atravs do quarto.
Nada h aqui dentro que no possa ser logo substitudo.
No entendera o significado real do que Allison dissera, tanto que ela ps as mos nos quadris, desejando exigir a volta a Nanticoke, naquele mesmo instante. Mas viu-o sorrir, o olhar escuro e provocador.
	Ainda est intimidada com todo esse luxo, querida...
	Sim. E da?
Jacob pareceu meditar por um momento, embora continuasse sorrindo. Por fim, levantou-se da cama e murmurou, aproximando-se:
	Deram-me um trabalho sob medida.
Allison afastou-se, temerosa. Estava preocupada com o brilho zombeteiro no olhar de Jacob. Parecia conhecer uma piada que ela ignorava.
Apertou os olhos com suspeita.
	O que quer dizer com isso?
	Venha c, Alli.
	No vou dormir com voc.
	Veremos. Nesse meio tempo, no desejo for-la a fazer nada a contragosto. S quero conversar.
	Sobre o qu?
Mal formulou a pergunta, Allison percebeu, com desalento, que ele j a fizera contornar o quarto e voltar para perto da cama.
	Certas coisas... A nova princesa precisa ser educada.
Allison sentiu que tocara a beira da cama com as pernas.
	Sente-se, Alli!
Ela obedeceu, juntando os joelhos sob o vestido cor-de-rosa, e cruzando as mos no colo, tentando cooperar.
	Muito bem. Parece uma princesa, muito composta.
	S por uns tempos...
Jacob sentou-se ao lado, sem fazer comentrios. Tomou-lhe a mo, colocando-a sobre a prpria coxa e, por longo tempo, permaneceu em silncio. De repente, principiou a falar como se contasse uma histria.
	Costumava pensar que toda a mulher que se aproximava de mim possua uma calculadora embutida no crebro.
Allison apertou os olhos, sem nada entender, enquanto continuava a ouvir.
	Desde menino, at ir para o colgio interno e ficar por conta prpria, apenas conheci meninas e senhoras que compravam roupas de costureiros famosos e viajavam pelo mundo todo, usando os cartes de crdito dos homens. Seus pais e maridos eram nobres, polticos, milionrios ou industriais poderosos. Algumas possuam antigos ttulos de nobreza. Tais mulheres punham uma etiqueta de preo em tudo. Jamais comprariam um sof de uma loja de departamentos, mesmo se fosse de bom gosto e qualidade. Tudo devia ser o melhor que o dinheiro pudesse comprar, de preferncia importado e muito caro.
	Que desperdcio abominvel...
	Concordo, mas lembre-se: era tudo que eu conhecia. As mulheres de meu mundo eram boas para com os homens com quem viviam: pais, tios, namorados e maridos que sempre adquiriam coisas bonitas. Os demais homens, a seus olhos, eram desinteressantes e, mesmo, desprezveis porque no podiam comprar-lhes o mais caro. E eu pensava que o mundo todo fosse assim.
Por fim, Allison percebeu que Jacob falava srio. Estava confidenciando algo muito ntimo e importante.
	Ento, quando deixou Elbia para frequentar a escola na Inglaterra e depois nos Estados Unidos...
	Levei meus conceitos comigo  disse Jacob, abraando-a com o brao esquerdo, enquanto entrelaava-lhe os dedos com a mo direita.  Fazia com que cada moa por quem me interessasse soubesse que tinha sangue real... e que possua muito dinheiro.
Allison riu.
	Que cafajeste!
	Admito que sim. Era incorrigvel. Usava meu nome e fortuna sem o menor escrpulo. Com o tempo, aprendi a ser mais sutil a fim de obter o que desejava. E, depois de um certo tempo, no precisei mais fazer propaganda de minhas origens. A imprensa fazia isso por mim. Fiquei conhecido como o solteiro mais cobiado, sempre em evidncia. Podia entrar em qualquer clube, cassino, teatro ou embaixada das Amricas, Europa e sia, e ouvir os murmrios, sentir as cabeas girando a minha passagem. As mulheres admiravam-me sem acanhamento e deixavam claro que estavam disponveis.
Allison suspirou. No gostava de ouvir Jacob falar de outras mulheres, mesmo que fosse com um ar de pouco-caso. Por fim, perguntou:
	O que isso tudo tem a ver comigo?
	O que estou tentando dizer  que recebi um treinamento, de modo que pudesse conseguir qualquer mulher que desejasse... e isso sempre funcionou at conhec-la... que jamais se deixou comprar. Percebi isso, dois anos atrs. No tentei fazer uso de meu poder para conquist-la, e voc me quis mesmo assim. Fez com que eu me sentisse especial e importante, porm nada lhe dei em troca.
	Deu-me seu amor... pelo menos foi o que pensei na poca...
	Sim. Tenho certeza de que pensou que eu a amava. Sei que nunca teria dormido comigo se no pensasse assim.
Allison precisou desviar o olhar, piscando diversas vezes para impedir as lgrimas. O desejo de prorromper em um choro sentido era muito forte.
	Fui ingnua...
	Talvez.  Jacob virou-se na cama, de modo a segur-la contra o peito forte.  Mas no  esse o ponto. Quando voltei e contei-lhe quem era, nem assim voc mudou. Continuou a desejar o mesmo que desejara antes. Quase atirou um vestido de cinco mil dlares em meu rosto.
Allison prendeu a respirao, perguntando:
	Custou tudo isso?!
	Sim. Faria alguma diferena se soubesse?
Allison percebeu que Jacob ria de novo, embora no pudesse ver-lhe o rosto.
	No... sim... bem, talvez  gaguejou na defensiva.  Poderia t-lo doado ao hospital para o leilo anual em prol da ala infantil...
	E isso que quero que entenda  interrompeu Jacob.  Voc  Allison Collins de Nanticoke, Connecticut. No foi moldada pelos padres da alta sociedade que avalia uma pessoa pelo carro que dirige ou o dinheiro que gasta. Fez-me sentir como se valesse pelo que sou, sem ttulos ou fortuna de famlia.
Gostou de mim, pura e simplesmente.
	Sim,  isso mesmo. Apenas Jay... ou Jacob sem o "von" no sei das quantas.
	Von Austerand.  melhor decorar.  seu nome agora, tambm.
	Por pouco tempo...
Jacob pareceu no ouvi-la e continuou falando.
	Coisas... objetos... apenas importam quando podem ensinar-nos algo sobre as pessoas.
Allison no entendeu.
	Como assim?
Jacob fez com que o encarasse nos olhos, a expresso ansiosa.
	Isso  importante. Oua: voc, Allison Collins, olha para tudo que  caro e franze o nariz. Concordo. Nenhum pedao de pano vale cinco mil dlares. E eu no ficaria de corao
partido se o iate Rainha Elise afundasse amanh ou se jamais voltasse a andar de limusine. Essas coisas apenas fazem parte do trabalho para o qual fui destinado.
	O trabalho de prncipe?
	Sim. Parte de toda essa ostentao  necessria, pois mantm vivo o mito sobre a linda famlia real e todos seus tesouros cintilantes.  isso que motiva a imprensa e o que pessoas como sua irm gostam de ler.  o que traz turistas a Elbia, e o turismo  nossa nica indstria verdadeira.
Allison pensou por um momento. Estaria Jacob tentando iludi-la? Entretanto, de algum modo, tudo aquilo comeava a fazer sentido.
	Ento  disse, por fim, devagar  tudo que sua famlia possui ou compra  para exibio?
	Nem tudo. E um pouco mais complicado. Ver quando chegarmos a der Palast Krystall.
	No falo alemo, porm acho que quer dizer "Palcio de Cristal"?
	Isso mesmo.
	O Palcio de Cristal  repetiu Allison.   um parque ou museu?
	 minha casa, e ser a sua tambm enquanto estivermos casados.
Allison encarou-o, assimilando aquela afirmao.
	Um castelo? Iremos morar em um castelo?
Jacob aquiesceu, observando-lhe a expresso de pnico com olhar divertido.
	De jeito nenhum  declarou Allison com firmeza.  Cray e eu morando em um... Nunca!
	Mas ter de ser assim. O palcio  a moradia oficial da famlia von Austerand quando est em Elbia, e o lugar onde voc e seu filho estaro mais protegidos da imprensa e dos curiosos. S assim teremos maior liberdade para viajarmos e irmos aonde quisermos.
O pnico que Allison sentia, naquele instante, comparava-se ao que experimentara certa noite na biblioteca, quando as luzes tinham-se apagado. Tentara encontrar a escada e escorregara. Fora como se tudo que era slido e confivel no mundo houvesse desaparecido.
	No posso levar meu beb para morar em um enorme mausolu de pedra, cheio de objetos preciosos. No mnimo, viverei sob tenso, com medo que Cray quebre alguma coisa de valor.
Jacob continuava observando-a, com ar divertido, e Allison tentou uma desculpa mais plausvel.
	Com ou sem turismo, aposto que gastam milhares de dlares na manuteno do castelo. Por certo o dinheiro poderia ser melhor empregado em...
Jacob a fez calar-se, com um gesto.
	O dinheiro para manter o palcio vem das excurses. Quase todas as alas so abertas ao pblico nos fins de semana. O mobilirio, as pinturas, e at a arquitetura do palcio so nossos tesouros nacionais. No pretende que abra da mo da herana de meu povo, pretende?
Allison jamais suspeitara que Jacob pudesse sentir-se to apegado a alguma coisa. A famlia e seu pas significam tudo para ele, apesar de sua reputao de playboy. Estudou a expresso ardente da boca viril e o orgulho sereno no olhar do marido.
	No  disse, por fim, mais emocionada do que poderia admitir.  Claro que no.  Aproximou-se e tocou-lhe o rosto.
 Parece que cresceu dentro de um museu.
	Bem parecido  retrucou Jacob.  Considero o palcio e seus tesouros como um emprstimo a minha famlia. Enquanto estiver l comigo, espero que tambm o considere como sua responsabilidade.
Allison franziu as sobrancelhas.
	Minha responsabilidade?
	Sim. Estou oferecendo-lhe um trabalho, Alli. Mas se a ideia  to odiosa, pode dizer-me e esquecerei o assunto.
Allison acenou, concordando, enquanto Jacob continuava:
O ltimo inventrio completo sobre os manuscritos e cotaes de livros da famlia foi feito antes da Segunda Guerra Mundial. Tentei convencer meu pai a contratar uma empresa para realizar o trabalho, mas ele est preocupado com outros assuntos e muito ocupado.
Allison comeava a entender onde Jacob desejava chegar, e sentiu o corao bater descompassado.
	Continue.
	Sei como  teimosa quanto a ganhar presentes, da conclu de que no ia gostar de receber a mesada de princesa. Mas se desejar assumir o trabalho de catalogar os livros e manuscritos, farei com que seja paga por servios profissionais. E claro, imagino que Cray precisar de sua ateno, em especial por ter que se adaptar a um novo ambiente, portanto no dever trabalhar em tempo integral. Poder entrevistar babs e escolher quem achar melhor para ajud-la.
Allison encarou-o, atnita. Estivera pronta a detestar tudo o que encontraria naquele prximo ano. Sentira-se preparada para renunciar a qualquer tipo de felicidade at que terminasse aquela louca fase de sua vida. Porm, Jacob estava ferecen-do-lhe o trabalho de seus sonhos, um refgio seguro e belo e, a seu modo, tentava preservar tambm seus sentimentos.
	Deve ser muito difcil para voc pensar no bem-estar de outra pessoa.
Jacob encarou-a, tentando adivinhar se aquilo era um insulto ou um elogio. Por fim, tomou-lhe a mo e sorriu com tristeza.
	Creio que nunca precisei pensar em outra pessoa alm de mim mesmo.  um hbito difcil de ser quebrado. Gosta da ideia de ser a bibliotecria real?
	Adoro  respondeu Allison com sinceridade.  O tempo passar muito mais depressa se tiver algo com que me ocupar. Mas, admito, ficarei nervosa em manusear tantos livros valiosos.
Jacob abraou-a, e Allison sentiu o pulsar de seu corao.
	No tenha medo de objetos, Alli. Trate-os com carinho. Pode fazer isso por mim?
	Tentarei.
	timo!
Jacob apertou-a mais entre os braos, enquanto Allison sentia-se muito contente. Tinha um emprego, no ficaria mais  merc dos acontecimentos.
Sentiu o aroma do corpo masculino, da colnia aps a barba e sabonete. Os braos eram fortes e protetores, e desejou muito ser beijada. Ergueu o rosto.
Jacob semicerrou os olhos, como se lesse seus pensamentos.
	No me provoque, Alli. No quero fazer nada que possa mago-la ou faz-la odiar-me mais do que j odeia.
	No o odeio  respondeu Allison com suavidade, segurando-lhe a nuca.  E creio que isso no ir doer.
Jacob entendeu a mensagem, inclinou-se e beijou-a. Allison correspondeu feliz, sentindo a presso dos lbios cada vez mais forte, porm Jacob comeou a afastar-se.
No, Jacob... continue, por favor... afinal,  nossa lua-de-mel...
	No fale assim  avisou Jacob com a voz rouca de desejo.
 No posso ficar neste quarto com voc e no lev-la para a cama, se continuar a me tocar desse jeito.
Allison o desejava com desespero, mas aquelas palavras a fizeram voltar  realidade do que eram... e como deveriam tratar-se.
Encarou-o, vendo tenso e desejo nos olhos escuros. Mais alguns segundos e teriam cruzado uma linha perigosa. Irem para cama juntos s iria piorar a situao. Allison era uma princesa temporria que um dia deveria descer a escada e deixar a verdadeira nobre assumir.
Por certo, em termos de traquejo social, Jacob devia julg-la uma nulidade. At j deixara claro que precisava ser treinada...
Desculpe  sussurrou.  Deixei me levar pelo momento.
Assim dizendo, levantou-se rapidamente da cama, e partiu para a sala onde ficou admirando a vista de Nova York.
Percebeu que Jacob aproximava-se e viu seu reflexo alto na vidraa da janela. Estava muito tenso.
Voc me quer, e eu a quero, Allison.
	Mas no faz parte de nosso acordo. No posso... no farei...  Porm no havia palavras que explicassem quanto o desejava e como temia ser magoada outra vez.  No comi nada desde cedo. Acha que poderamos pedir alguma coisa?
Aquilo pareceu faz-lo retornar  realidade. Desviou o olhar, sufocando uma risada seca.
	Que eu saiba, Nova York tem bons restaurantes.
Antes que Allison pudesse adivinhar se a mgoa que captara na voz de Jacob era real ou a manifestao de orgulho ferido, o prncipe j caminhava para a porta.

CAPITULO VII

Sinto-me como se.fosse uma fugitiva da lei!
Allison encolheu-se no assento de trs do txi, enquanto mergulhavam no trfego noturno de Manhattan.
Dois fotgrafos correram ao lado do veculo, flashes espo-cando junto  janela. Ao seu lado, Jacob murmurou algo por entre os dentes, mas continuou sentado, muito ereto, o queixo erguido, o olhar sombrio fixo  frente.
Por fim, o txi deixou os dois fotgrafos para trs. Allison ajeitou-se junto a Jacob e tentou aspirar o ar frio e seco, a fim de acalmar os nervos tensos. Espetaculares decoraes de Natal enfeitavam todas as vitrines por que passavam, atraindo a ateno de todos os transeuntes. Observando o brilho dos tons vermelhos, verdes e dourados nas ruas, concluiu que iria acostumar-se, quem sabe com o tempo, com o assdio dos reprteres, e aprender a ser o alvo das atenes com maior naturalidade.
	Lamento  sussurrou Jacob com irritao.  Pensei que um txi comum chamaria menos ateno que uma limusine. Estou surpreso de ver como a mdia descobriu-nos to cedo. Algum deve ter falado.  Segurou a mo de Allison.  Est tudo bem?
De certo modo, v-lo nervoso o tornava um aliado e a deixava mais  vontade.
	Estou bem, no se preocupe. Eram s alguns reprteres. Apenas ficaram inconvenientes quando o txi acelerou.
Jacob observou-a, parecendo surpreso pelo modo calmo como falava, embora no estivesse muito convencido.
	Tenho um pressentimento de que ir sair-se bem  murmurou, erguendo-lhe a mo, beijando-lhe os dedos e voltando a olhar pela janela.
Allison franziu as sobrancelhas. Talvez a imaginao estivesse pregando peas, mas Jacob parecia estar falando de algo mais do que sua habilidade em lidar com jornalistas agressivos.
	Na verdade  replicou , depois que tiver perdido o medo, talvez isso seja divertido. At hoje, jamais haviam me perguntado como  ser uma das mulheres mais ricas do mundo.
Jacob lanou-lhe um olhar com o canto do olho.
Allison soltou uma risada e entrelaou os dedos na mo do marido. No tinha muita certeza se o prncipe ainda estava ciente de que permaneciam de mos dadas. Talvez fosse um hbito que adquirira com as outras namoradas.
	No se aflija  continuou.  No me tornarei ambiciosa. Quando for hora de ficar  sombra, obedecerei. E no ter que me pagar uma fortuna por isso.
	Veremos, Allison...
A resposta lacnica, de novo a fez cismar se no haveria outro significado por trs das palavras. Jacob era um homem muito mais complexo do que imaginara.
O trfego tornava-se mais denso  medida que entravam na Broadway. Carros obstruam todas as esquinas. O motorista do txi lanou um olhar pelo espelho retrovisor.
	Achei que seu rosto era familiar, moo.  o tal nobre de quem esto falando no rdio?
De sbito, Jacob ficou alerta.
	Rdio?
	Sim.  O motorista empurrou o bon sobre a careca e girou o boto do rdio. Um locutor falava sobre a reunio nas Naes Unidas.  Voltaro a mencionar o assunto  murmurou, desviando de outro carro.  No param de anunciar a mesma coisa o dia inteiro.
O locutor terminou de dar o boletim da Bolsa de Valores e disse, mudando de tom:
	Bem, senhoritas, derramem uma lgrima! Um dos mais ricos solteiros do mundo est fora do mercado. Na verdade, parece que j era casado h quase trs anos. Fontes do New York Times revelaram, poucas horas atrs, que o prncipe Jacob von Austerand de Elbia, um dos menores pases da Europa, casou-se secretamente com uma norte-americana. O prncipe e a princesa esto aqui, em Nova York, gozando uma segunda lua-de-mel, e em breve voaro para Elbia onde vivero com o filho em meio ao luxo que ns, simples mortais, apenas conseguimos imaginar. Lamento, meninas!
Allison olhou para Jacob que estava branco como um lenol.
Ento, de modo inesperado, teve muita vontade de rir... e assim o fez, soltando uma sonora gargalhada.
	Bem, acho que isso torna tudo mais simples, Jacob. Algum soltou o pssaro da gaiola antes do tempo.
Jacob cerrou os dentes.
	As pessoas que trabalham com o juiz Resnicek. Algum de seu escritrio deve ter corrido at o Times com a histria em punho. Se descobrir quem...
Allison tocou-lhe o brao.
	No  to mau assim. Iramos anunciar nosso casamento na reunio de imprensa, de qualquer modo. A verdade poderia vazar e, a sim, teramos um grande problema.
	Pode ser...
O txi parou em frente a um edifcio alto. Parecia mais um prdio de escritrios, como os demais, porm uma discreta entrada com um toldo apresentava pequena placa de lato onde se lia: La Fleur.
Jacob examinou a rua de alto a baixo.
	Pelo menos ningum est nos esperando aqui. Vamos entrar, antes que comecem a espocar flashes.
Allison escorregou no assento e alcanou a porta. Jacob pagou ao motorista, dando-lhe uma boa gorjeta, e indo encontr-la na calada. O motorista sorria, a expresso alerta enquanto voltava a descer a rua barulhenta. Allison riu.
	G que foi?  quis saber Jacob, tomando-a pelo brao e conduzindo-a alguns degraus para cima, at um saguo com castiais que cintilavam.
Allison sussurrou:
	Tenho o pressentimento de que devemos comer depressa.
	Por qu?
	Aposto quanto quiser que nosso bem-humorado motorista de txi rumou para a cabina telefnica mais prxima, a fim de ligar para um amigo reprter e vender a informao de onde estamos no momento.
Jacob encarou-a, estupefato.
Voc aprende depressa!
Allison riu.
	At que  divertido... como brincar de bandido e mocinho sem dar tiros.
Jacob balanou a cabea, admirado.
	Fico feliz que esteja se divertindo, Alli. Talvez consiga me fazer manter a cabea fria nessa situao.
O matre do restaurante fez um trabalho esplndido, mantendo-os longe da curiosidade dos fotgrafos e jornalistas, no salo de jantar. Mas, de vez em quando, ouviam um sbito clamor de vozes, e Allison sabia que mais um reprter fora expulso do restaurante pelos dois seguranas musculosos que mantinham guarda junto  recepo.
Pediram o jantar e comeram com calma, embora Alli mal sentisse o sabor dos maravilhosos pratos de escalope, camaro e lagosta mergulhados em molho de manteiga, limo e vinho. A diverso de iludir a imprensa foi desaparecendo  medida que as velhas preocupaes voltavam.
	No que est pensando agora?
Assim dizendo, Jacob estendeu o brao sobre a mesa, segurando a ponta dos dedos de Allison, como se desejasse fazer o papel de marido amoroso aos olhos do pblico ao redor. Todas aquelas leves carcias e olhares melosos...
Allison suspirou, tentando aparentar indiferena, e apenas murmurou:
	Cray...
	Est muito bem com Diane.
	No  isso. Minha irm  maravilhosa com crianas. Preocupo-me que os comentrios a nosso respeito corram com muita velocidade.
	 claro que assim ser. Como incndio na mata. Disse-lhe para ficar preparada, por um certo tempo.
	E se algum reprter rastear o endereo de Diane antes que possamos voltar a Nanticoke?
Jacob olhou para o prprio prato, levou uma garfada  boca e mastigou, pensativo.
	Poder ser um problema. Quer telefonar para sua irm e alert-la?
	Acho que o melhor seria irmos para casa o mais rpido possvel, Jacob. Precisamos mesmo comparecer  reunio de imprensa amanh?
	 melhor respondermos a algumas perguntas, deixarmos que tirem fotos, de modo a apaziguar os editores. Assim evitaremos que fiquem nos cercando a cada esquina, esperando para saltar sobre ns. Telefonarei para Frederick, avisando-o de que houve uma mudana nos planos.  Pensou por um momento.  De nada adiantar viajarmos no seu carrinho j que o disfarce foi descoberto. Gosta muito dele?
	Meu calhambeque? Nem tanto. Anda me dando dor de cabea o tempo todo.
	Vamos do-lo a uma boa causa?
	Agora mesmo? Aqui?
	Se ligar para Thomas agora, poderemos ter a limusine no hotel assim que terminamos com a reunio da imprensa.
	Parece um bom plano.
Jacob estava impressionado. Embora sempre houvesse desconfiado que AUison era forte e corajosa por trs da aparncia humilde, jamais esperara que o ajuste  vida de celebridade ocorresse antes de vrias semanas, talvez meses. Estava alarmado com sua atitude.
Mais tarde, na mesma noite, enquanto a imprensa formava um bloco nico nos sales do hotel amplamente iluminado pelo brilho dos holofotes, Alli comportava-se com extrema naturalidade. At os reprteres mais frios sorriram para ela quando viram seus olhos que pareciam guas-marinhas. Depois de trinta minutos de cmaras de vdeo, flashes e perguntas chocantes, Allison ainda parecia  vontade e radiante.
	No tive oportunidade de dizer antes  falou Jacob quando, por fim, saram de carro da cidade, com Thomas na direo da limusine.  Esteve surpreendente.
Allison riu.
	No tive tempo de ficar surpresa. Estava to nervosa que pensei que aquele colunista pomposo, na primeira fila, fosse ouvir meus joelhos baterem.
	Bem, nem eu ouvi.  Jacob beijou-lhe a ponta dos dedos, com o gesto habitual.  E uma verdadeira princesa.
Allison parou de sorrir.
	No diga isso.
	Por que no?
O olhar era de desafio.
	Desejou se casar comigo com o propsito de limpar o caminho para seu futuro. Continuo sendo uma bibliotecria de cidade pequena que est desempenhando um papel em um melodrama que voc e seus conselheiros escreveram.
	 mais que isso.
Allison abriu muito os olhos, como se o calor na voz de Jacob a amedrontasse, e ele esforou-se para no lhe contar seu plano. Ainda precisava repensar cada detalhe. Nem mesmo sabia se, o que tinha em mente, seria vivel.
De certo modo, percebeu que estava sendo egosta de novo, mas dessa vez no sentiu remorso. Estava determinado a obter o que desejava e pronto a arriscar tudo: a aprovao do pai, o amor dos sditos, a amada independncia de Allison... quem sabe at mais que isso.
Allison tentou libertar a mo, e a relutncia em deixar-se tocar deixava Jacob, cada vez mais cheio de desejo. Pressionou-lhe os dedos com mais fora, dizendo em voz alta:
	Sabe o caminho, Thomas?
	Sim, senhor.
	Ento, vamos avante.
Ergueu a divisria de vidro entre o banco do motorista e a luxuosa rea dos passageiros.
	Jacob  avisou Allison  no comece...
	Relaxe. No vou seduzi-la. A menos que... tambm queira.
	No! Continuarei com essa fantasia apenas por motivos prticos. No sou sua amante. Acho que j deixei isso bem claro.
	H uma parte do que est acontecendo que no  fantasia.
	Verdade?
	 minha esposa. Tudo entre ns  legal.  Jacob inclinou-se no assento de couro macio que contornava o banco traseiro, e sorriu.  No quer aproveitar-se de seus direitos matrimoniais?
	Casei-me com voc para enganar a imprensa. No disse que dormiramos juntos por causa dela tambm.
	Que tal considerar nossa intimidade como um modo de apaziguar nosso desejo sexual?
	Dentro de uma limusine?!
	Oh! Otimo! No disse no... respondeu com outra pergunta. Sinto que est fraquejando....  Jacob gostava de provoc-la daquele modo. Era um desafio adorvel, uma adversria de valor.  Se no aqui, que tal em sua aconchegante cama quando chegarmos em casa?
Allison premiou-o com um olhar desdenhoso.
	Esquea, Alteza.
Jacob suspirou e preferiu mudar de ttica.
	No vou pression-la. No desejo fazer nada que no deseje.  Inclinou-se para longe, dando a iluso que se afastava, porm deixando um brao esticado, de modo casual, nas costas do assento.  Desculpe se sa dos limites.
Pegou uma mecha dos cabelos dourados de Allison entre os dedos. Parecia seda. Desejou enfiar a mo no meio da cabeleira macia e enterrar o rosto nas madeixas perfumadas.
Allison tratou de ignorar o gesto ntimo, e pigarreou, falando como uma professora sria ao aluno rebelde:
	Compreendo. Acho que, para um homem como voc, que teve intimidade com metade da raa feminina no mundo...
Jacob soltou uma gargalhada.
	Que exagero! A maior parte dessas notcias no passa de... mexericos.
Allison inclinou a cabea para o lado, de modo gracioso, e observou-o, enquanto o carro saa da estrada interestadual. Comeara a chover, e os pneus gemiam no pavimento molhado.
	Mas esteve com muitas mulheres e disse que elas, em geral, no o repudiam.
	E verdade, mas no vou para a cama com todas que sorriem para mim.  Jacob comeou a brincar de modo mais agressivo com os cabelos dourados, acariciando-lhe a cabea com os dedos, e deslizando-os para a nuca. Allison esticou-se como se fosse uma gata satisfeita com o carinho do dono.  Est gostando?
	Muito....
	Que tal isso?
Jacob massageou-lhe os ombros.
	Gostoso... Acaba com a tenso. Pode fazer de novo?
Jacob virou-se de lado no assento, a fim de encar-la, enquanto Allison ajeitava os quadris para que pudesse massagear melhor seus ombros. Continuaram a conversar sobre tudo, de modo casual, enquanto Jacob comeava a deslizar as mos para o meio das costas de Allison, at chegar  cintura.
Continuavam na estrada, mas Jacob duvidava de que ela ainda tivesse noo de onde estava.
A cabea de Allison havia pendido, como se estivesse em transe.
	Sinto-me to... leve. Como se tivesse sado de meu corpo e estivesse flutuando... bem no alto, Jacob.
Alguns flocos de neve caam junto  janela do carro.
	E  bonito a em cima, Alli?
	Sim, muito.
Jacob arriscou um beijo muito suave sobre o decote do vestido, sentindo-a estremecer. Em vez de afastar a boca, continuou a pression-la sobre a pele macia, aspirando o perfume de flores.
Disse a si mesmo que s desejava toc-la e que j tinha ido longe demais. Tinha total inteno de honrar o desejo de Alli e no dormir com ela... pelo momento. Porm, o instinto viril e forte ansiava por sua feminilidade.
Enquanto, com os lbios, continuava a percorrer a pele de alabastro, as mos acariciavam-na sem parar.
No ousava tocar-lhe os seios. Ainda no. Os olhos de Allison estavam fechados, e a respirao era lenta, como se estivesse adormecendo. Jacob continuou a acarici-la de modo confortador. Allison murmurou, suspirando:
	Gostoso...
Com o dedo, Jacob contornou-lhe o umbigo por cima do vestido. No houve protestos.
Ento, deslizou a mo mais para baixo, de maneira casual, entre as coxas. Esperou, prendendo a respirao. Allison continuava imvel e relaxada, sem nada dizer.
Mas Jacob desejava um sinal que revelasse estar ela disposta a receb-lo.
Por fim, no pde mais esperar. Devagar, ergueu com os dedos as dobras da saia cor-de-rosa de l, at encontrar a textura diferente da meia-cala. Allison continuava sem nada dizer ou fazer para impedir os avanos, porm, Jacob sentiu um leve tremor comeando a espalhar-se pelo corpo feminino. Allison continuava muito relaxada contra seu peito.
Jacob sabia como a natureza de Allison era apaixonada e intensa, e como a fome do desejo a dominava sempre que faziam amor. Sentia-se maravilhado e agradecido ao pensar que guardara toda aquela natureza ardente para ele. Nenhum outro homem jamais a possura.
Sabendo que devia agir logo ou nunca mais, Jacob subiu a mo at alcanar o elstico da meia-cala, passando-a por dentro da calcinha de renda e cetim, e sentindo a suavidade da pele quente. Quase cedeu ao prazer, mas desejava dar satisfao apenas para Allison. Poderia esperar sua vez.
Moveu o dedo pela carne escaldante e pressionou-a at senti-la reagir, retorcer-se entre seus braos, os lbios e os olhos cerrados. Allison afastou um pouco as pernas e murmurou seu nome.
Era tudo de que Jacob precisava.
Devagar...
Acariciou-a com muito cuidado, tentando ler os sinais em seus lbios, os menores tremores do corpo, repetindo cada movimento que, percebia, estava lhe dando prazer. Desejava que seu delrio sensual continuasse para sempre. Porm, no conseguia manter-se controlado. Quando Allison comeou a estremecer em xtase, Jacob sentiu que tambm reagia de forma violenta, como se labaredas escaldantespercorressem cada centmetro de seu corpo.
Entretanto, continuou concentrado em lev-la ao mximo do prazer. No conseguia afastar o olhar do rosto de Allison, repleto das mais variadas emoes, da excitao ao relaxamento e de novo ao prazer. Sentiu que ela enterrava as unhas em seu pescoo. As carcias continuavam, devagar, at que pressentiu que o clmax aproximava-se.
O corpo estava dolorido de desejo, mas Jacob conteve o mpeto de possu-la ali mesmo no carro, pois sabia que Allison jamais permitiria, apesar de estarem ocultos aos olhos do mundo.
Com um movimento rpido, colocou-a em seu colo. Allison agarrou-se aos ombros fortes e, antes que pudesse gritar de prazer, beijou-a com sofreguido, abafando os suspiros e sussurros.
Porm, no a deixou descansar. Entendia que sufocara os desejos ardentes por muito tempo e que necessitava satisfaz-los ao mximo. Por mais duas vezes, com as mos, f-la chegar ao clmax, at sentir que estava satisfeita. Por fim, aguardou. Allison nada dissera desde que comeara a acarici-la.
Ainda sentada no colo de Jacob, arrumou a saia e repousou a cabea no peito forte, suspirando de modo profundo.
	Jacob...
	Sim?
	E voc?
	No se preocupe.
Sorriu. Sentia-se satisfeito, de uma maneira peculiar, como se houvesse compartilhado o prazer que proporcionara.
	Percebe que quebrou sua promessa?
 Desculpe-me. No pretendia...
	Estragou tudo, Jacob.
	Apenas queria...
Allison tocou-lhe os lbios com os dedos, fazendo-o calar-se.
	Quieto. Nada de desculpas. O que est feito no tem remdio, s lhe resta submeter-se a penalidade. Da prxima vez serei eu a seduzi-lo.
Jacob deu um amplo sorriso.
Como quiser, querida.
CAPITULO VIII

Allison sempre pensara que no havia Natal mais lindo do que o de Connecticut. Crescera em um mundo coberto de neve, casas com teto vermelho sob o sol de inverno, aroma de torta de ma, canela, biscoitos caseiros e peru assado com molho de ervas. Mas Elbia, no incio de dezembro, era de uma beleza indescritvel.
Olhando pela janela do helicptero particular dos von Aus-terand, admirou o cenrio que se descortinava, murmurando:
	Parece um pas de contos de fadas...
Haviam viajado no avio Concorde at Paris. Jacob fizera com que o helicptero os encontrasse no aeroporto de Orly para a segunda etapa da viagem. Elbia s possua um aeroporto com pistas muito curtas para permitir o pouso de grandes aeronaves. A famlia real costumava usar o helicptero a fim de ter um transporte rpido e confortvel par.a os aeroportos maiores ou para compras de fim de semana em cidades como Viena, Berlim ou Roma.
	O Palcio de Cristal...  Allison sussurrou as palavras.
  bvio por que o chamam assim.
Jacob inclinou-se sobre a esposa, apontando as finas torres de pedra.
	Parecem pontas de gelo ao sol, no  mesmo?
	Sim. E os muros brilham como cristal.
	E uma iluso. O mrmore foi trazido da Rssia no sculo quinze, de um veio muito raro e branco, entremeado de quartzo.  A luz reflete como se fosse cristal. Quando a terra em volta fica coberta de neve, o efeito  magnfico. Jura-se que toda a estrutura  feita de vidro.
	Que linda iluso!
Assim dizendo, Allison recostou-se no assento, mas a postura relaxada apenas encobria o nervosismo. Sentia-se andando sobre brasas, ansiosa por descer do helicptero e explorar cada torre, ala e galeria daquele castelo l em baixo. Mas, uma outra parte de seu ser, ansiava por pisar em solo conhecido, muito longe daquela terra estranha. Uma voz interna ficava repetindo que aquele no era seu mundo, e aquelas no eram as pessoas com quem estava acostumada, e iriam destru-la. Como poderia passar um ano ou mais em tal esplendor e depois, com humildade, voltar para a antiga vida e ficar satisfeita? Seria impossvel. Mas, mesmo que tivesse recusado ir  Elbia com Jacob, o mundo j sabia sobre Cray e seu nobre pai. As coisas nunca mais seriam as mesmas. Tudo fugira a seu autocontrole.
Olhou para Cray, sentado entre ela e Jacob. Brincava com a carteira do pai e quando haviam levantado vo, agarrara-se  Allison, apavorado, nada conseguiu acalm-lo. Jacob procurara em torno por algo que distrasse o menino, mas nada encontrara. Com um sorriso inspirado, tirara a carteira do bolso, erguendo-a.
O objeto intrigara o garotinho, assim como as luvas no dia em que se haviam conhecido. Cray parara de chorar e absorvera-se no estudo das divises, cartes de plstico e notas coloridas.
Allison comentou:
	Vai ser difcil reaver seu dinheiro.
Jacob sorriu.
	 a nica pessoa no mundo a quem daria tudo sem discutir. Impressionante, no ?
	O qu?
	Cray nada sabe sobre dinheiro ou o valor dos objetos. S o que importa  ter sua me por perto.
A criana bateu com a aba da carteira no joelho de Jacob e ficou observando a reao, fazendo Allison comentar:
	Parece que j est acostumado com voc.
Haviam adiado a viagem a fim de encontrarem um corretor de imveis para alugar a casa de praia em Nanticoke, enquanto Allison estivesse fora. A embaixada de Elbia fizera com que estivesse com a documentao em ordem bem depressa. Allison demorara para arrumar tudo, encaixotar lembranas da famlia e embalar o que pretendia levar consigo. Durante duas semanas, Jacob e Thomas haviam ficado na casa da praia, esse ltimo o tempo todo enxotando reprteres curiosos. Naquele instante, cochilava, exausto, ao lado do piloto.
	Em breve  continuou Allison , Cray ir acrescentar o nome do pai a seu pequeno vocabulrio.
O olhar de Jacob abrandou-se ao observar o filho.
	No sabia que ele tinha um vocabulrio...
	Tem sim! Eu o entendo muito bem.
	Ouviu isso, Thomas?  Jacob inclinou-se para frente, a fim de dar um tapinha no brao do amigo.  O pequeno Cray logo dir meu nome.
Thomas lanou um olhar frio por sobre o ombro.
	E que nome ser esse, Alteza Real?
Jacob parou de sorrir, olhando para Allison.
	No tinha pensado nisso...
	Jacob  respondeu ela com firmeza.   esse seu nome.
	E por que no... "papai"?
Allison no gostou do brilho teimoso nos olhos escuros.
	No.
	Por qu? Afinal, sou seu pai.
Allison resmungou:
	Poderia estrangul-lo por ter comeado esse assunto, Thomas.
O guarda-costas deu de ombros.
Jacob pousou a mo na perna rechonchuda de Cray, de modo carinhoso, e Allison no gostou daquilo.
	Na verdade,  algo que j deveramos ter discutido, Alli.
Ela suspirou.
	No pensei que fosse ser um problema. Afinal, mais alguns anos e Cray nem ir lembrar-se de voc.
E voltou a concentrar-se na viso maravilhosa das montanhas coroadas de neve ao redor do castelo e das casinhas com telhado vermelho, ruas estreitas com lojas e chals de pedra muito antigos. Se no estivesse to preocupada, por certo estaria divertindo-se muito.
	Papai  sussurrou Jacob ao ouvido de Cray.  Sabe dizer pa-pai?
Allison poderia mat-lo.
O helicptero sobrevoou os muros de pedra. Dentro deles existiam jardins sem flores, naquela poca do ano. Ao final do labirinto de pequenas estradas, via-se um terreno que fora limpo e estava sem neve. Ali o helicptero desceu, com um rumor mal-humorado de quem se sente melhor no ar do que na terra. Allison desafivelou o cinto de Cray.
Antes que a esposa pudesse objetar, Jacob agarrou o menino com carteira e tudo e desceu, dirigindo-se a uma arcada do castelo.
Thomas ajudou Allison, com a bolsa de fraldas e mamadeiras, a descer do helicptero. No instante em que ficaram a ss, voltou-se para a jovem, sussurrando:
	Ajude-o! Precisa de voc!
Allison encarou o velho, duvidando de que tivesse ouvido bem, mas a expresso ansiosa j desaparecera do rosto coberto por espessa barba.
	Venha, princesa  disse Thomas, o olhar dirigindo-se para o castelo de modo significativo.  Sua Alteza a aguarda.
Allison segurou-o pela manga do palet.
	Existe alguma coisa a mais acontecendo por aqui que desconheo, no  verdade?
	Agora no  o momento...
	Ento, mais tarde. Sei que  muito leal ao prncipe. Observei-os juntos. Se o ama tanto quanto eu, conte-me o que est acontecendo.
	Apenas fique ao lado dele. Seja corajosa. No desista com facilidade.  Olhou para Jacob que esperava por eles junto  porta de madeira macia.  Nada mais posso dizer. Vamos, princesa... est gelado aqui fora. Ir pegar uma pneumonia.
Allison obedeceu, esquecendo-se, momentaneamente, das estranhas palavras, mas sabendo que voltariam a falar no assunto. Decidiu que procuraria ficar a ss com Thomas e question-lo de novo.
Se Jacob tinha segredos, no os revelaria, a menos que desejasse faz-lo. Sabia como podia ser teimoso. Quando tomava uma deciso, no compartilhava os sentimentos. Mas Thomas parecia ter simpatizado com a nova princesa que pressentiu poder obter informaes valiosas para sua prpria segurana.
Uma fila de empregados aguardava para saudar o casal real no salo com paredes revestidas de madeira. Eram corteses e sorriam com entusiasmo, como se, h muito tempo, estivessem aguardando-a. E, de repente, Allison lembrou-se, chocada, de que no havia uma senhora no castelo desde a morte da me Jacob. Cumprimentou cada homem e mulher, da arrumadeira do andar trreo at o mestre-cuca e o terceiro assistente do mordomo. Enquanto se movia, sabia que Jacob a observava tendo Cray no colo, e imaginou se estaria passando ou falhando no teste.
	Quando irei conhecer seu pai?
Haviam chegado ao final da fila, e Jacob dispensara a criadagem, ficando apenas os quatro no salo. Jacob lanou um rpido olhar para Thomas.
	Em breve...
	No ir jantar conosco hoje?
	Espero que no  respondeu o prncipe com uma ponta de irritao na voz.  Anda muito ocupado. Venha. Irei mostrar-lhe seus aposentos, e sei que deseja ver a biblioteca e...
Allison no se moveu, cruzando os braos no peito.
	Jacob  falou de modo abrupto , alguma coisa est errada por aqui!
Cray devia ter sentido a tenso no ar, pois comeou a choramingar, estendendo as mozinhas rechonchudas para a me que o tomou dos braos do prncipe, aninhando-o no ombro.
	Nada h de errado. Conheo meu pai e ir levar algum tempo at acostumar-se com as novidades.
	Est zangado porque se casou comigo?
	A palavra certa seria furioso. Mas o problema no  tanto o casamento quanto...
Parou de falar, mas o olhar eloquente que lanou a Cray falava por si mesmo.
	Entendo. Voc no soube ser cauteloso em seus casos
amorosos. Criou um embarao para o rei, no  isso?
Jacob no respondeu. Ao invs disso, voltou-se para Thomas:
	Pode ir. Descanse o resto do dia, pois precisa.
Allison aguardou at o velho empregado sair do aposento, fechando as pesadas portas atrs de si mesmo.
	Ento, o que seu pai pretende fazer? Esconder-se de mim e do neto por toda a vida?
	Meu pai no se esconde de ningum. Est apenas ganhando tempo e deixando claro quanto se sente contrariado. Quando estiver pronto, aparecer. E no estou ansioso por esse momento. Allison encarou-o.
	Tem medo de seu pai?!
Os olhos de Jacob ardiam como brasas vivas.
	Nunca! Jamais o temi nem fugi de confronto algum. Talvez seja por isso mesmo que no nos damos muito bem. No irei rastejar, se  o que ele deseja.
	Ento, qual o motivo dessa charada? Pensei que o rei o houvesse forado a se casar comigo.
	No. O casamento foi sugesto de Thomas e minha deciso.
	E por qu? Para contrariar seu pai? Deix-lo com raiva? Se assim foi, considero uma grande infantilidade!
Jacob olhou-a com irritao.
	J disse antes, Alli, trouxe-a aqui, como minha mulher, para proteg-la. Quanto a outros motivos pessoais... no me sinto na obrigao de dar justificativas a voc ou a algum. Esfregar uma certido de casamento no nariz da imprensa pode ter sido ideia de Thomas e foi do agrado do velho Frederick, conselheiro de meu pai. Mas isso no quer dizer que estou agindo como sonmbulo ou criana, simplesmente obedecendo a ordens.
Allison jamais o vira to zangado. Parecia fazer fora para no sacudi-la, e percebeu que seria melhor no irrit-lo mais. Embalou Cray nos braos.
	No sei se acredito em voc, mas o que est feito est feito, e s resta aguardar.
Jacob fez um aceno rspido de cabea, concordando, deu meia-volta e rumou para a porta. Allison olhou em torno e percebeu, de repente, que, se no ficasse colada ao marido, estaria perdida naquele imenso castelo. Apertando Cray, correu atrs de Jacob, entrando em outro salo com armaduras e antigos bustos de mrmore, a tempo de v-lo subindo uma escada em espiral, e tratou de segui-lo.
Chegaram ao segundo andar em um corredor forrado de espelhos, do cho ao teto. O maravilhoso efeito visual dava a impresso de que tinha quilmetros de comprimento.
	Nosso quarto  anunciou Jacob, abrindo a primeira porta  direita.
Allison hesitou, segurando com mais fora a sacola de Cray.
	Nosso?
Jacob olhou-a com se estivesse lidando com uma tola.
	Sim. Espera-se que a esposa do prncipe compartilhe o mesmo quarto com ele.
	Concordamos que no seramos amantes. O que aconteceu na limusine... foi excitante, mas no pense que ser rotina.
	E aquilo que falou sobre me seduzir?
Allison sentiu as faces em fogo.
	Deixei-me levar pelo momento. No deveria ter dito tal coisa.
Desde o passeio de limusine em Nova York, tinham estado to ocupados que no houvera tempo de pensar em sexo. Alm do mais, Thomas ficara com eles na casa da praia que era muito pequena.
	No deve acontecer de novo, Jacob.  Por que no conseguia ser convincente? S ao pensar nas mos fortes percorrendo-lhe o corpo, no conseguia raciocinar direito. Mesmo a respirao tornava-se mais apressada.  Creio que em um lugar to grande como esse, haver espao para um quarto s meu.
Em resposta, Jacob tomou-a pelo brao, fazendo-a entrar e fechando a porta.
No vai funcionar, Alli.
	Por qu? Penso...  Mas parou de falar, ao ver onde estava.  Meu Deus, Jacob!
O quarto era enorme e espetacular. Alis, a palavra "quarto" no descrevia o espao ao redor. Estavam em uma sute particular com reas separadas de dormitrio, vestirio e banheiro. Na parte extrema, havia um semicrculo envidraado que talvez fosse parte de uma das torres, e que servia como saleta de descanso ou de visitas, com um sof para duas pessoas, duas confortveis poltronas estofadas com um tecido de listas azuis e brancas, uma mesinha entre elas, com uma cesta de frutas. A cama, mais distante, era de madeira escura e pesada, talvez mogno, coberta por uma manta de croch e almofadas macias de cetim. Junto  cama, viam-se delicadas luminrias de cristal e estantes com livros encadernados em couro e ttulos em letras douradas, parecendo muito antigos e valiosos. Allison ansiava por toc-los e folhe-los. Por fim, murmurou:
	Isso  magnfico...
Cray comeava a espernear em seus braos, choramingando. 
	Fico feliz que tenha gostado  disse Jacob, aliviando-a da bolsa pesada.  Costumava ser a sute real, os aposentos de meus pais. Mas depois que minha me morreu, o rei preferiu ocupar uma sute menor na ala leste, prxima ao escritrio que utiliza.
	Sinto-me como se tivesse morrido e ido para o cu  confessou Allison, embalando Cray e tentado acalm-lo.
	Ponha-o no cho  disse Jacob, indicando o carpete espesso com desenhos de flores.  Talvez queira brincar.
	Est exausto... viajou tanto...  melhor tentar faz-lo dormir.
	O berrio  logo ali.  Jacob conduziu-a at uma porta dupla que parecia ter sido colocada havia pouco tempo, e com persianas que permitiam a passagem de som e ar, mesmo quando fechadas. Allison ficou pensando se Jacob a teria providenciado. Por certo, compreendera que gostaria de ouvir Cray se chorasse durante a noite.  Quer deit-lo?  bom que acostume-se com o novo ambiente.
Entraram em um outro cmodo que trouxe lgrimas aos olhos de Allison. Tudo ali era azul e branco, do bero s cortinas e carpete. Uma das paredes estava coberta por prateleiras com brinquedos e livros infantis, e as janelas deixavam entrar a luz do sol em abundncia. No centro do enorme quarto havia brinquedos prprios de um play ground. Allison comentou:
	Deve ter posto operrios trabalhando aqui dia e noite sem parar.
	Gostou?
	Sim, muito!  Mas o senso prtico j comeara a manifestar-se.  Porm, receio que Cray no consiga dormir com tanta luz.
Jacob dirigiu-se a um painel e apertou um dos botes. Persianas opacas desceram do teto, de modo silencioso, cobrindo todas as janelas. Apertou outro boto e uma luminria com luz fraca acendeu-se, transformando o quarto em um ambiente escuro e repousante.
Allison balanou a cabea, estupefata.
	Acho que assim est bem.  Pegou uma mamadeira da sacola, entregando-a a Cray.  Est com fome, menino?
O menino sorriu de modo lnguido, os olhos comeando a se fechar naquele ambiente sossegado.
Jacob saiu do quarto, enquanto Allison acomodava o filho para o merecido descanso.
Com gestos calmos, alimentou-o e trocou as fraldas dele. Entretanto, no ntimo, sentia-se muito ansiosa. Estava agradecida pela considerao de Jacob para com ela e Cray, e pelo trabalho que tivera a fim de deix-los  vontade.
Providenciara acomodaes maravilhosas onde o menino poderia crescer, aprender e divertir-se e onde ela poderia descansar e ter privacidade. Iria dividir aquela sute deliciosa com Jacob e acreditava que ele no esperava compartilhar a cama. Ou esperava?
Apesar de muito cansada com a viagem, sabia que no podiam adiar a conversa. De sbito, ficou com a boca seca, as mos midas, ao deixar o berrio e voltar  sute matrimonial.
Jacob estava sentado no sof de dois lugares, um livro repousando entre as longas pernas cruzadas. Parecia concentrado na leitura e indiferente ao que se passava ao redor.
Allison aproximou-se por trs do sof e tocou-o de leve no ombro.
	Jacob, precisamos conversar.
	Creio que esta  uma primeira edio. Talvez queira checar quando comear a catalogar os livros da coleo principal. Aposto que o decorador apenas retirou esse livro da biblioteca porque combinava com o ambiente.
Allison suspirou.
	Deixe o livro de lado.
Assim dizendo, colocou as mos nos ombros largos e olhou para o alto da cabea com cabelos negros e espessos, parecendo a crista de um grande pssaro. Ansiava por passar os dedos nos fios e, sentindo uma onda de prazer, fechou os olhos por um momento, a fim de se autocontrolar. O calor da proximidade de Jacob trazia  tona lembranas ntimas. Em instantes como aquele, era fcil lembrar as carcias que haviam trocado.
Jacob colocou o livro sobre o sof e ergueu a cabea a fim de olh-la.
	O que ? Esqueci alguma coisa?
	Sim. Precisa sair daqui.
Jacob enrijeceu o corpo, e Allison pressentiu que se expressara com muita frieza.
	No quis ser rude  apressou-se em dizer.  Apenas no creio que... esteja pensando em dormir no mesmo quarto comigo.
	No vejo problema algum. H muito espao naquela cama enorme. Talvez precisemos aumentar o quarto de vestir, mas chamarei um carpinteiro amanh se...
	Pare com isso!  Allison exclamou de modo sussurrado, a fim de no despertar Cray no quarto ao lado, embora desejasse gritar a plenos pulmes e pr para fora toda a frustrao que sentia.  Sabe muito bem o que quero dizer!
Com gesto rpido, Jacob tomou-a pela mo, fazendo-a contornar o sof.
	Sei, sim, e no vai conseguir nada.
Assim dizendo, a fez sentar-se em seu colo.
	Conseguir o qu?
	Isolar-se com nosso filho, deixando-me de lado.
Allison sentiu um perigoso frmito de excitao percorrer-lhe o corpo.
	Disse que precisava vir para Elbia, a fim de fugir da imprensa e manter Cray longe dos olhares curiosos, para o bem dele e de toda minha famlia. Isso compreendi. Mas viver no mesmo espao, em especial em um to grande como este palcio que parece um hotel de luxo,  muito diferente!
	Claro que ...
Jacob sorria, parecendo divertir-se, e enlaou-a com os braos.
	Pensei que nosso acordo estivesse claro  dardejou Allison furiosa.  Estamos fazendo isso por razes prticas. No posso comear a agir como... uma mulher casada.
	Quer dizer, dormir comigo todas as noites?
	Sim! Isso mesmo! No posso agir assim por alguns meses e depois entreg-lo, em uma bandeja de prata, para outra mulher!
	Por que no? Qual o problema de fazer sexo comigo por algum tempo e depois partir?
A pergunta pegou-a de surpresa. Diane sempre dizia que era ingnua, mas ser que Jacob era assim to insensvel para os assuntos do corao? Percebeu que estava tentando provoc-la. No o deixaria vencer o jogo.
	Porque  contra meus padres morais.
Com gesto casual e inocente, Jacob deslizou as mos pelo suter de Allison, como se ajeitasse as dobras.
	Ento nada tem a ver com o fato de estar apaixonada ou no. Esse, sim, seria o principal motivo de uma mulher no desejar entregar um homem para outra.
	Apaixonada por voc depois do que fez?
	Sim...
O tom rouco e sensual com que falou, fez AUison sentir-se fraca, um pouco tonta e... muito vulnervel.
	Quando concebemos Cray  murmurou Jacob , fizemos amor sem reservas, sem pensar no futuro.
	Mas foi naquela poca! Antes de voc... sabe que no h nada a negociar. No poder permanecer casado comigo e assumir o trono de seu pai ao mesmo tempo.
	Creio que  verdade.
	E no pretende abrir mo da liderana de seu pas, pretende?
	Tambm  verdade.
	Portanto, no existe futuro para ns dois.
	No  momento de falarmos sobre poltica.
	Isso no  poltica, mas sim o que est acontecendo conosco, nesse exato momento.  um assunto bastante pessoal.
Assim dizendo, Allison tentou levantar-se.
	Fique quieta!
Estremeceu ante a voz de comando, e sentiu que os braos de Jacob pareciam aros de ferro a sua volta. Encarou-o, tentando decifrar o brilho misterioso que sempre havia em seu olhar quando desejava encobrir os pensamentos.
Por fim, Jacob continuou, as palavras sibilando por entre os dentes.
	Vou dividir esses cmodos com voc, como disse, por motivos prticos. Quanto tempo acha que duraria essa farsa se comeassem a surgir boatos de que o prncipe e a princesa assumiram quartos separados?
Allison soltou uma risada nervosa.
	Em um lugar grande como este? Ora!  como se fosse uma fortaleza! Como um reprter passaria pela segurana, guardas e todos os empregados?
	Reprter algum precisaria entrar no palcio. Temos centenas de empregados aqui, incluindo secretrias, arrumadeiras, mordomos, cozinheiros e guarda-costas. As pessoas comentam. Voltam para casa  noite, conversam com as esposas e amigos e discutem os acontecimentos que presenciaram no palcio...
Pode apostar que o mais discreto dos empregados sempre acaba contando algo, confiando em pessoas ntimas. Precisamos fazer com que nosso casamento parea o mais real possvel.
Allison cerrou os olhos.
	Pode dormir neste sof, Jacob.
	Muito pequeno. Vou ficar com dor nas costas.
	Ento eu dormirei.
	De jeito nenhum! No confia em mim?
Allison no respondeu mas notou, consternada, que estivera acariciando-lhe o trax com a ponta dos dedos, de modo instintivo. Sentindo que Jacob respirava de modo excitado, tentou afastar a mo com gesto abrupto, fazendo-o comentar:
	Percebi. No confia em voc mesma.
Allison bateu-lhe no peito por brincadeira.
	Bobagens!
	Mas  isso mesmo, no ? No suporta a ideia de se deitar na cama comigo e no poder fazer amor.
	Pare com isso, Jacob! No est sendo engraado.
	Bem, vamos testar a cama e ver o que acontece.
	No! Por favor! No posso fazer isso!
	Porque no me ama? Diga e a deixarei sozinha. Juro que no a tocarei se disser que nada sente por mim.
Assim dizendo, Jacob levantou-a do colo, carregou-a at a cama e atirou-a sobre a colcha. Allison tentou sentar-se, mas uma avalanche de almofadas macias impediu-a.
	E mais complicado do que isso, Jacob!
	Mentira! O amor no  complicado. Ou se ama uma pessoa ou no.
Assim dizendo, Jacob estirou-se a seu lado.
Allison podia sentir quanto estava excitado.
Como lhe dizer que o amava muito se tudo era encarado de modo to superficial? Se iria abandon-la com a maior facilidade quando chegasse o momento oportuno?
Jacob acariciou-lhe os seios por sobre o suter, depois por baixo dele e do suti.
Allison arqueou o corpo, tentando dominar as sensaes que a envolviam.
	Diga que no me ama e paro j, Alli...
Mas nem uma palavra foi proferida. Ela o amara desde o primeiro minuto em que o vira em Nanticoke, mesmo nos tempos em que haviam ficado separados. Estava destinada a man-t-lo no corao por todo o sempre, apesar do destino cruel.
Mas ento lembrou-se de que Jacob amava Elbia, o ttulo e o poder. De repente, Allison gritou:
	No o amo!
De imediato o prncipe parou de acarici-la, como se a vida houvesse abandonado seu corpo.
	Percebo. Acho que esperei demais...
	Lamento, Jacob, eu...
Devagar, o prncipe levantou-se.
	No me deve explicao alguma. Perguntei, e voc respondeu.
	Mas...
	Irei incomod-la o menos possvel, mas nada h a fazer quanto ao quarto. Porm, no tema ser atacada no meio da noite. Isso nunca acontecer.
De costas para Allison, saiu do quarto. Ela no voltou a v-lo at meia-noite, quando deitou-se a seu lado na cama, bem no canto. No a tocou.
Quando Allison acordou pela manh, aps um sono agitado, Jacob j havia sado do aposento.

CAPITULO IX

Allison passou grande parte dos trs dias seguintes, desfazendo malas, acostumando Cray ao novo lar, e investigando o confuso labirinto de corredores que conectavam os mais de cem cmodos do palcio.
Encontrar a sala de jantar habitual da famlia, alm das duas maiores para ocasies especiais, tornou-se fcil. Decorara o percurso entre a sute do casal e a biblioteca e, em breve, sentiria-se confiante o suficiente para explorar outras partes da propriedade.
Certa tarde, seguira por um corredor desconhecido, e fora dar no ptio central com os tristes jardins em tons de marrom por causa do inverno.
A porta fechara-se e vira-se abraando Cray, protegendo-o do vento gelado. Chamara por ajuda e, quase no mesmo instante, uma voz jovem respondera em alemo:
	J vou!
Uma adolescente surgiu.
	Oh! Senhora! Entre logo!
	Acho que peguei o caminho errado... Estou ansiosa para passear nos jardins quando for primavera.
	No vero  disse a jovem em um ingls razovel , as flores so lindas. O rei adora rosas!
Usava uniforme de empregada e observou Cray que balbuciava algumas palavras e parecia simpatizar com a recm-che-gada. Allison perguntou:
	Qual seu nome?
	Gretchen, senhora. Que lindo beb! Parece com o pai. Tem olhos bondosos.
	Mas  bastante travesso.  Allison hesitou um instante.
	Gostaria de me ajudar a tomar conta dele? Preciso de uma bab, j que pretendo trabalhar um pouco.
	Trabalhar, senhora?!
	Sim. Acho que as americanas so diferentes... Preciso me manter ocupada. Aceita?
Gretchen olhou para Cray com adorao.
	Oh! Sim!
AUison marcou um horrio, mais tarde naquele dia, para conversar com a moa, e ficou pensando com quem deveria falar a respeito das novas funes que pretendia dar  Gretchen.
Precisava tambm conversar com Jacob e saber se aprovava a escolha. Porm, estava se tornando muito difcil conversarem. A hostilidade parecia dominar o ambiente todas as vezes em que se encontravam, por acaso, nos corredores, e quando se sentavam  mesa, cada qual a um canto.
AUison no conseguia acreditar que o magoara tanto ao dizer que no o amava. Entretanto, parecia no haver outra explicao para a polida frieza do prncipe. Conclura que homens como Jacob eram muito orgulhosos e no estavam acostumados a serem rejeitados.
Encontrou-o no escritrio, uma verso menor da rica biblioteca onde comeara a trabalhar algumas horas por dia, enquanto pageava Cray.
Registrava cada um dos milhares de livros por ttulo e autor, e depois avaliava seu preo atual. O processo era lento, e Cray estava sempre precisando de cuidados. Porm, com a ajuda de Gretchen, esperava acelerar o trabalho.
Bateu na porta, anunciando-se.
	Desculpe incomod-lo, mas queria consult-lo sobre a bab para Cray.
	Tudo bem. J entrevistou mulheres da cidade?
	Acho que no ser necessrio.
Ento, contou sobre Gretchen.
	Conheo a moa  disse Jacob, por fim.  Trabalha no palcio desde os doze anos,  eficiente e de bom gnio, mas no sei se tem experincia com crianas.
	O mais importante  ser alegre e ajuizada. E preciso apenas gostar de brincar com Cray.
- Certo. Porm, desejo esclarecer que tambm pretendo passar algum tempo com meu filho, todos os dias.
Allison franziu as sobrancelhas.
	E claro, se assim quiser...  Com um gesto ousado, tomou a mo do marido.  Pode v-lo quando desejar.
Jacob afastou-se, como se houvesse sido queimado com gua fervente, e Allison engoliu em seco, antes de desabafar:
	Escute, no outro dia, voc me forou a dizer o que disse.
	No me venha com essa histria!  Jacob levantou-se de modo abrupto.  Gretchen est bem para o posto. Avisarei o chefe da equipe de empregados sobre a mudana de suas tarefas.
	Jacob... gostaria...
	Saia! Tenho trabalho a fazer. Veio aqui com um propsito e j resolvemos a respeito.
Mas Allison podia ver a dor nos olhos escuros do prncipe e sentiu remorso.
Aprendera no pouco tempo que estava em Elbia que muitas pessoas dependiam de Jacob. Embora o pai fosse o rei no poder, grande parte do trabalho do dia-a-dia era responsabilidade do prncipe que passava quase doze horas dirias em reunies na ala leste onde as decises de governo eram tomadas.
Quando terminava, fechava-se em seu escritrio particular para ler, estudar relatrios e propostas e preparar-se para as prximas reunies com o gabinete do pai ou dignitrios estrangeiros. Jacob trabalhava muito por seu pas, mas tudo que o mundo conhecia a seu respeito era a fama de playboy.
Allison sentiu um onda de ternura ao ver que estava sofrendo... por sua causa.
	Jacob, diga-me por que est agindo desse modo.
	No h nada a dizer, Allison. Estou ocupado.
. No sairei at conversarmos!
Podia sentir a tenso no corpo musculoso e ver  incredulidade nos olhos escuros, ante o desafio.
	Se no sair daqui, saio eu!
	Primeiro vamos esclarecer uma coisa, Jacob. No quero que faa amor comigo porque...
	Porque sente dio de mim. Compreendo. Arruinei sua vida. Eu a seduzi e a abandonei.
	No  por isso! Oua-me... Alteza. No quero que faa amor comigo porque temo no resistir a outro abandono e sei que ser inevitvel. Existe muita coisa contra ns. Amei-o desde o primeiro momento e... creio que sempre o amarei, embora seja difcil confessar.  As lgrimas comearam a rolar pelas faces de Allison que prendeu as mos de Jacob nas suas.  Quando nos conhecemos, pensei que fosse um rapaz comum como eu e que iria se formar-se e trabalhar perto de Nanticoke. Iramos nos casar e ter uma famlia, do mesmo modo que meus pais, duas pessoas comuns que se amavam.
	Bem, estava enganada.
	Sim. Redondamente. No posso pedir que abra mo do que possui e do que .
O olhar de Jacob tornara-se mais suave.
	 verdade o que acabou de dizer?
	Sobre no podermos...

	No. Sobre... sempre ter me amado?
Allison aquiesceu.
	Sim, mas de nada adianta, se no sou correspondida.
	Se a amo ou no  irrelevante  retrucou Jacob com voz fria.
Allison sentiu o rosto corado de humilhao, as lgrimas rolando sem que conseguisse det-las.
Jacob empertigou-se, parecendo tornar-se um gigante.
	Assumirei o trono  disse com firmeza  e a terei comigo. No tenho a menor inteno de abrir mo nem de uma coisa nem de outra.
	J disse, no serei sua amante. Esse tipo de vida para mim  impossvel. No quero dividi-lo com outra mulher, viver  parte, sempre esperando pelo momento de poder v-lo... Tambm no seria vida para Cray.
Com gesto sbito, Jacob tomou-a nos braos.
	Alli, o que est feito est feito. Temos um filho e, quer queira ou no, voc me ama. De minha parte, no sou indiferente a isso. Por outro lado, tambm no me contento com pouco. Acharei um modo de conserv-la, manter o trono e ficar com Cray.
Allison achou que Jacob estava delirando, buscando um milagre. Era um homem a quem nunca fora dito "no".
Entretanto, jamais poderia viver como concubina. O que diriam seus pobres pais j to abalados com a situao presente? E como o pai de Jacob iria sentir-se sabendo que mantinha, de modo descarado, duas famlias? Toda aquela conversa era impossvel.
Tentou falar, mas Jacob impediu-a com um beijo.
	Voc  minha. Cometeu um erro ao admitir que me ama. Estava pronto a deix-la em paz, pensando que pouco se importava, mas agora no desistirei, Alli, por nada nesse mundo!
	Mas, no posso...
	No precisa fazer nada. Deixe comigo. Poder demorar um pouco, mas... Nesse meio tempo, irei dedicar-me a ser pai de Cray e... seu marido.
Allison mordeu o lbio. Cara em uma armadilha. Na verdade, Jacob no dissera que a amava. Ser que, aps assinar os papis do casamento em Nova York, ela perdera os direitos sobre Cray? Deveria ter lido com mais ateno o contrato nupcial...
Mas os pensamentos dissiparam-se ante a presso forte dos lbios de Jacob sobre os seus.
Sentiu-se incapaz de resistir. Se o prncipe desejasse possu-la ali mesmo, sobre a escrivaninha do escritrio ou no cho, no resistiria. Com alegria, descerrou a boca e recebeu-o.
Ouviu-se uma batida  porta e, sem esperar por permisso, uma figura magra entrou no escritrio.
	Frederick!
A exclamao de Jacob no disfarava o desagrado.
Allison tentou, desesperada, afastar-se dos braos do marido, mas estava presa.
Frederick mal a olhou, como se no passasse de uma pea do mobilirio.
	Tem uma reunio com o ministro da economia dentro de cinco minutos, Alteza.
	Sim, sei disso.
Allison podia sentir a fora que o prncipe fazia para conter a raiva devido a interrupo, e apressou-se a murmurar:
	Vou ver como Cray est...
	Certo, Alli. Irei v-la mais tarde. Espere por mim.
Saindo do escritrio, Allison encostou-se na parede e tentou recobrar o autocontrole. Sabia muito bem o que iria acontecer mais tarde, naquela noite, e nada podia fazer. Jacob era muito obstinado. Esperava apenas poder sobreviver quela paixo e seguir em frente quando tudo houvesse acabado.
Jacob tentou controlar-se durante toda a tarde. Srios problemas deviam ser discutidos e decises importantes precisavam ser tomadas. Ao entardecer, o prncipe e os ministros j haviam chegado a algumas concluses importantes.
A cada instante daquele longo dia, enquanto discutia o que era melhor para Elbia, seus pensamentos no deixavam Allison, o rosto emocionado, a determinao nos olhos azuis, implorando para no a considerar uma mera amante.
Jacob mal conseguira dormir nas ltimas trs noites, aps a esposa ter-lhe dito que no o amava.
Era mais do que simples orgulho masculino, sentia-se um bruto por tentar for-la a abrir mo de suas convices e voltar a aceitar suas carcias. Porm, no momento, nada podia fazer. Apenas rezava para que cada parte de seu plano desse certo, quando chegasse a hora.
Mas o tempo estava passando...
Olhou para o relgio. Passava das cinco horas, e era provvel que Alli ainda estivesse na biblioteca.
Cruzou os corredores, dirigindo-se  ala mais antiga do palcio onde se localizavam os aposentos da famlia real e a biblioteca particular.
Abriu a porta com ansiedade.
	Alli? Est aqui?
Thomas ergueu os olhos dos documentos e livros antigos espalhados  volta. Retirou os culos e coou a ponta do nariz.
	Saiu h quase uma hora.
Pilhas de livros tinham sido removidas das estantes e arrumadas de maneira impecvel.
	Parece que andou ocupada.
	Sim  respondeu Thomas.  Muito.
	O que est lendo?
	Apenas uma antiga novela que Allison... quero dizer, Sua Alteza Real, recomendou. Pensei em ler um pouco antes do jantar, se no se importa...
	Claro que no, por favor, continue.
Jacob estava contente por ver que Thomas e Allison estavam se dando bem. Em geral, Thomas no fazia a menor questo de confraternizar com as outras mulheres que conhecera.
	Talvez eu... no jante com meu pai hoje  noite, Thomas.
O velho servial era considerado acompanhante real e fazia as refeies com a famlia, portanto Jacob achara melhor avis-lo.
	Vai trabalhar at tarde, Alteza?
	Sim. Mais ou menos...
Precisava encontrar AUi e ficar em sua companhia, toman-do-a em seus braos e possuindo-a para sempre. E sabia o que fazer para conseguir aquilo.
Jacob saiu da biblioteca e apressou-se a percorrer um corredor repleto de quadros de ancestrais pintados por artistas cujas outras obras apenas poderiam ser vistas no Louvre ou no Museu Britnico. Havia quadros dos von Austerand feitos por Rembrandt, Bronzino e Ingres.
Subiu a escada de dois em dois degraus, perdendo o flego.
Sem bater, entrou na sute que dividia com Allison, o corao pulando de ansiedade. Estava vazia.
Ento, ouviu algum cantarolando no berrio.
Pretendia entrar ali correndo, mas a viso ante seus olhos o fez parar  porta: Allison, usando um roupo branco com gola de renda e que lhe caa at os tornozelos, embalava Cray na cadeira junto ao bero, entoando uma cantiga de ninar.
Os longos cabelos loiros caam-lhe sobre os ombros, os olhos semicerrados.
Na ponta dos ps e sentindo-se um tanto tolo, Jacob atravessou o quarto do filho que cheirava a talco de beb e ao perfume de AUi. Postou-se atrs da cadeira, sem saber o que fazer.
	Em geral, no o ponho para dormir to cedo  sussurrou Allison, pressentindo a presena.  Brinquei com ele por duas horas a fim de deix-lo cansado.
Jacob sorriu, colocando a mo sobre a cabecinha de Cray.
	A me parece to cansada quanto o filho...
	J irei despertar.
A paixo na voz da esposa o deixou louco. Jamais desejara tanto uma mulher. Todas haviam entrado e sado de sua vida como brisas ligeiras. Mas Allison estava marcada a ferro e fogo em seu corao.
Agora sabia a verdade sobre os sentimentos dela e iria demonstrar-lhe seu carinho, embora palavras no conseguissem expressar sua paixo.
Allison ps Cray no bero e cobriu-o com uma leve manta. Jacob tomou-lhe a mo e saram junto do berrio, fechando a porta com delicadeza.
	Est com fome, Alli?
	No muita. Talvez... mais tarde... poderemos pedir alguma coisa.
	Como quiser.
Ficaram parados, encarando-se, no meio do quarto. Jacob sussurrou:
	Dispa-me.
Fantasiara aquilo muitas vezes, nas noites em que haviam estado separados: os dedos delicados de Allison afrouxando-lhe a gravata, desabotoando-lhe a camisa...
Quando o sonho tornou-se realidade, e Allison quase terminara de despi-lo, Jacob vibrava de paixo.
Com as roupas espalhadas no cho, permaneceu nu, diante dela.
	Agora, quero v-la tambm.
Assim dizendo, comeou a despi-la com lentido, sentindo a impacincia no corpo da esposa.
Sem palavras, Allison estava dizendo-lhe que o desejava tambm, com o olhar, os gestos suaves e o gemidos sufocados. Aquilo no era o prenncio de um ato sexual comum, mas de uma entrega de amor. Apenas naquele momento percebia a diferena.
	Quero am-lo de todas as maneiras possveis...
Jacob riu.
  muito para uma s noite.
	Falo srio. Decidi que apenas o momento presente tem valor. Hoje pertencemos um ao outro.
	E como enfrentar o amanh?
	Quando chegar o momento, saberei. Tudo que importa  estarmos juntos. Sobreviveremos ao amanh, embora, talvez, no muito felizes. Mas me recuso-me a destruir a felicidade que estou sentindo nesse momento, pensando no que poder ou no acontecer.
Jacob tomou-a nos braos, colocando-a sobre a cama. Fizeram amor durante toda a noite, os corpos fundidos em um s.
Por fim, saciados, permaneceram abraados, como se desejassem reter aqueles momentos preciosos para sempre. Entretanto, apesar de exausto, Jacob no conseguiu conciliar o sono, pois sabia os riscos que teria de enfrentar, em breve, para manter Allison e Cray consigo. A batalha no seria fcil.

CAPITULO X

Allison acordou, sentindo o aroma gostoso de caf. A temperatura, fora das cobertas, estava baixa, mas a bebida quente prometia ser reconfortante. Abriu os olhos, sentando-se, por um momento perdida ao ver que Jacob fora embora, mas logo notando o bilhete que fez seu corao bater com alegria.
Querida,
Espero que tenha dormido bem. O caf ao lado da cama  para esquent-la. No se preocupe com Cray. J o alimentei, embora a maior parte do cereal tenha cado em minha roupa. Gosto de ser pai! Pedi  Gretchen que tomasse conta dele durante toda a manh, para que voc pudesse descansar. Tenha um bom dia. Irei v-la  noite, espero, para jantar. Vamos passar algum tempo juntos.
Jacob
Allison suspirou, deixando-se cair de novo sobre a maciez das fronhas de cetim. Como Jacob era atencioso! E que beleza saber que pai e filho estavam se entendendo! Olhou para o relgio sobre a lareira. Quase dez horas. No se lembrava de ter dormido at to tarde desde que Cray nascera. Que luxo!
Serviu-se do caf espesso, muito mais forte que o americano. Aprendera a apreci-lo desde que chegara a Elbia. Nunca mais voltaria a gostar de caf fraco.
Comparou Jacob com aquela bebida: depois de t-lo amado, um homem to forte, complexo e de personalidade marcante, como poderia esquec-lo e gostar de outro?
Por fim, dirigiu-se ao banheiro, tomou uma ducha, secou os cabelos e vestiu um suter de angora cor de chocolate e cala em um tom mais claro. Aquela tonalidade valorizava seus cabelos loiros e sua pele branca; alm do mais, estava evitando usar cores claras naqueles dias, pois os livros com o quais trabalhava estavam sempre cobertos por espessa camada de poeira.
Em seguida, foi ao berrio. Cray encontrava-se ao lado de Gretchen que disse:
	Bom dia, Alteza! O menino  muito esperto! J sabe segurar os livros e folhe-los.
	Leio para ele desde que nasceu. Adora livros.
	Pretendo contar-lhe histrias em ingls e alemo, assim aprender as duas lnguas ao mesmo tempo, Alteza.
	Otimo, Gretchen! Preciso trabalhar na biblioteca por algumas horas, antes do almoo. Pode ficar com Cray?
	Claro, senhora! Mas, se permite que diga, deveria ir fazer compras, no trabalhar. H muitas butiques bonitas na cidade!
E, sem malcia, olhou para os trajes simples de Allison que achou graa.
	Ento, o pessoal do castelo no aprova as roupas casuais das americanas? Bem, acho que poderei fazer algumas compras.  Mas, com frequncia, irei usar moletons.  muito confortvel! Comprarei um conjunto para voc tambm usar todos os dias.
Allison saiu do berrio, rindo consigo mesma. Ia ser engraado aprender sobre os hbitos palacianos. Desceu a escada apressada e, do saguo, ouviu o rumor de muitos passos. Esquecera-se de que era sbado e, nos fins de semana, turistas vinham admirar algumas reas do castelo com os mveis raros de vrios perodos, a comear do sculo quinze.
Esperou que o grupo passasse e s ento prosseguiu caminho, chegando  biblioteca. A porta estava fechada. Abriu-a, entrou, e ouviu duas vozes masculinas.
Logo reconheceu a figura magra vestida de negro.
	Desculpe, Frederick. No sabia que estava aqui.
O velho conselheiro olhou-a sem sorrir, desde a imensa lareira de pedra onde ardiam brasas incandescentes. O brilho das fascas emprestava um colorido sinistro s feies do homem.
Bom dia... senhorita.
Allison j reparara que nunca a chamava de "princesa" ou "Alteza Real" como as demais pessoas.
	Bom dia. Pretendia catalogar mais alguns livros esta manh, porm, se est no meio de uma reunio, posso voltar depois.
S ento a outra figura voltou-se para olh-la. Era um homem grande e corpulento, parecendo gozar de pouca sade. Os cabelos eram grisalhos e ralos. Como Frederick, trajava um terno impecvel. Olhos de serpente a observaram, assimilando tudo que viam. Nada disse.
	Sim,  melhor que volte depois  disse Frederick.
	No!  O homem gordo enfatizou a palavra com um gesto de mo.  No pode haver melhor hora.
Allison franziu o cenho, confusa com o tom de comando, mas ento percebeu o anel de ouro e rubis, idntico ao que Jacob usava. Estava para ser apresentada a Karl von Auste-rand... pai de seu marido... sogro... av de Cray... rei de Elbia.
Sentiu a boca seca e as mos trmulas, mas forou-se a no dar um passo atrs. Pelo contrrio, aproximou-se.
	Senhor  murmurou  estou contente por conhec-lo, afinal.
Estendeu a mo e, como no houvesse reao, cumprimentou com um gesto de cabea, mas o rei permaneceu imvel, os lbios cerrados.
Frederick pigarreou.
	O rei me pediu que falasse em seu nome. J deve ter percebido que seu romance com o prncipe Jacob foi muito tolo, um desastre poltico.
	Tolo?
Allison ficou alerta, ante o tom hostil que a conversa ia tomando.
	Sim. O prncipe deveria ter assumido o trono no dia primeiro do ano, logo aps se casar no Natal. Tal no poder acontecer enquanto estiver casado com uma plebeia.
	Entendo tudo isso  replicou Allison com calma.  Suas tradies j me foram explicadas. Porm, no sei por que o casamento do prncipe comigo o transforma em um lder menos eficaz.
O rosto do rei ficou vermelho, ao mesmo tempo em que a encarava como se fosse a mais estpida das mulheres. Frederick tratou de prosseguir, com impacincia:
Trata-se de nossas leis. Se o primognito do rei casa-se com uma plebeia, o trono vai para o prximo descendente da linhagem. O rei no tem outro filho ou filha. O prncipe Jacob dever reinar ou ser o caos.
	Parece-me que suas leis so muito antiquadas.
Allison falou em um impulso, aborrecida por ver a hostilidade dos homens, e desejando provoc-los.
	Sua opinio no importa. O caso  que Jacob  um homem inteligente, embora costume sucumbir  paixo com muita frequncia. Sabe que no pode sacrificar seu pas por causa de um romance qualquer com uma mulher sem sangue azul ou linhagem. Uma estrangeira!
Allison encarou os dois homens, sem poder acreditar no que ouvia de Frederick. Ser que conheciam Jacob melhor do que ela? No percebiam o homem forte no qual se tornara?
	Minha cara  prosseguiu Frederick, olhando-a de cima a baixo.  Tenho certeza de que isso a magoa muito, mas no se iluda: Jacob tomar a deciso certa, no final. Concordou em conhecer uma jovem nobre de Veneza, no dia do baile de Natal. Pedir que seja sua rainha e...
Um grito estrangulado pareceu querer sufocar Allison.
	Mas ele est casado comigo!
	Mera formalidade.  Frederick parecia irritado com a interrupo.  Ir divorciar-se de voc assim que isso for possvel, e se casar com a condessa.  claro, haver uma pequena demora at podermos comunicar ao pblico. Mas os detalhes do casamento real j foram estudados. Jacob  um bom rapaz. Far o que  necessrio.
	E o "bom rapaz" concordou com tudo isso?
A voz de Allison soou rouca, a cabea rodava, os olhos ardiam com lgrimas que se recusava a verter na frente daqueles dois homens arrogantes.
Quando Frederick hesitou, o rei falou em timo ingls:
	Claro que sim. Sabe o que esperamos dele desde que era um menino. Acha que daria as costas  herana e ao povo por causa de uma tola garota americana que o meteu em encrencas ficando grvida?
O dio afastou a dor e a frustrao.
	Eu o meti em encrencas? Parece que seu filho teve muito a ver com essa histria!
Karl observou-a com os olhos idnticos aos de Jacob.
	Minha jovem, por acaso meu filho j disse que a amava?
Allison engoliu em seco.
	Sei que... ele me ama.
	Jacob disse isso?
No... nenhuma vez. Mas Allison jamais poderia admitir tal coisa para aqueles dois homens que mantinham seu destino e o de Jacob nas mos.
Ante o silncio, Karl respirou aliviado.
	Foi isso mesmo que pensei. Talvez eu e meu filho no tenhamos o mesmo modo de pensar sobre tudo, mas conheo-o bem. Casou-se com voc porque se sente responsvel pela criana. Foi o nico motivo. Houve outras mulheres antes, muitas delas. E haver muitas outras depois, minha cara. Ser melhor que compreenda isso de uma vez por todas. Um ano  tempo demais para que permanea aqui. Quanto antes deixar Elbia, mais cedo poder comear nova vida.
Lgrimas quentes escorriam dos olhos de Allison. No podia mais lutar contra a situao.
Viu o rei e o conselheiro deixarem a biblioteca, as cabeas inclinadas, em uma conversa sussurrada, deixando-a sozinha para enfrentar uma verdade cruel.
Cada partcula de felicidade que experimentara na noite anterior, pareceu desaparecer, como um perfume que evaporava do frasco.
Sentiu-se desolada e s. Por certo que tudo aquilo era verdade. Jacob jamais dissera que a amava. Nunca prometera que iriam ficar juntos para sempre, embora tivesse dado a entender que no a deixaria desamparada. Iludira-se em acalentar a esperana de ficarem juntos, mas agora que ouvira a notcia sobre a tal condessa e um provvel casamento, tudo assumia um carter muito mais real.
S havia uma coisa a fazer. Precisava abandonar Jacob e voltar a seu mundo, apesar das dificuldades que criaria para a famlia. Mas no suportaria dizer-lhe adeus ou implorar por ajuda. No. Precisava voltar para casa por conta prpria.
Jacob pesquisara cada aposento do palcio onde havia livros, colees ou manuscritos que poderiam interessar a Allison.
Quando retornou  sute do casal e perguntou pelo paradeiro da esposa  Gretchen, soube que fora at a cidade.
	Sozinha? A p? No conhece nada por aqui!
	Ofereci-me para acompanh-la, senhor...
A bab estava tendo muito trabalho para trocar as fraldas de Cray que esperneava sem parar.
Jacob colocou a palma da mo sobre o peito do filho que, de imediato, acalmou-se. Era como se o garotinho soubesse que o dono daquela mo no apenas o amava como tambm possua mais poder que muitos homens.
	A princesa disse que tinha compras a fazer e que pretendia ir sozinha.
Jacob franziu o cenho. Compras? O que poderia precisar que j no houvesse no castelo? E no era prprio de Allison deixar Cray, a no ser que fosse para trabalhar. No dissera, na noite anterior, que estava ansiosa para levar o filho a passear e conhecer os arredores?
	Na verdade, sugeri que fizesse compras  confessou Gretchen com humildade.  Talvez tenha ido comprar um vestido para o baile...
Jacob cerrou os olhos. Claro! O baile! Uma semana antes do Natal, sete dias a contar daquele, o rei daria um grande baile aberto a todos os cidados de Elbia e aos amigos de todos os outros pases. Ricos e pobres, nobres e plebeus, centenas de pessoas compareciam todos os anos. E nem contara  Allison sobre o evento! Tanta coisa acontecera em to pouco tempo... Tinha tanto em que pensar... Mas isso no era desculpa. Alguma das empregadas deveria ter comentado com Alli que se vira na obrigao de encontrar um vestido adequado.
	Deveria ter providenciado uma costureira para ela  resmungou Jacob.  Oua, Gretchen, se a princesa voltar, diga-lhe para ficar aqui e esperar por mim. Irei  cidade agora, ver se a encontro, mas voltarei dentro de duas horas.
Gretchen aquiesceu com um gesto de cabea, embora parecesse estar muito ocupada com Cray.
Jacob decidiu ir a p, seguro de que acabariam encontrando-se. Afinal, a cidade no era to grande assim. Afinal, todo o territrio de Elbia no passava de cinco mil quilmetros quadrados.
Enquanto enveredava pelas ruas estreitas, cobertas de neve, ia pensando na conversa que tivera com Thomas horas antes, quando fora buscar Allison na biblioteca. O velho amigo estivera lendo um manuscrito que tinha sobre a mesa, to antigo que a capa de couro estava em tiras e as pginas soltas.
Embora Jacob estivesse com pressa ao ver que a esposa no estava ali, Thomas insistira para que lesse algo que descobrira no antigo manuscrito. A importncia das linhas escritas  mo, em latim, penetraram no crebro de Jacob, pouco a pouco. Quando erguera a cabea, ambos haviam sorrido um para o outro.
	Ento encontramos a soluo, meu velho Thomas. Tambm tenho lido muito nos ltimos dias. Guarde isso com todo o cuidado  disse Jacob.  Iremos precisar.
	Outra coisa, senhor. Tenho uma confisso a fazer. Fui eu quem deixou vazar a informao sobre Allison e Cray para o Times de Londres.
	Voc?!
	Sim. Senti que aquela jovem era especial e que o senhor a amava, mas precisava de um empurro...
	Parece que foi mais parecido com um safano... E se sente culpado?
Thomas encarou-o por um momento, avaliando a prpria resposta.
	No, meu senhor. Na verdade, no me sinto culpado. Ela o merece, e o senhor a ama.
Jacob foi pensando naquela extraordinria conversa, enquanto caminhava pela zona comercial da cidade, mas logo a ateno focalizou-se em encontrar Allison. Embora minscula, a capital de Elbia era muito populosa e repleta de lojas, museus, restaurantes e cafs. Allison poderia estar em qualquer parte.
Cada vitrina estava decorada para o Natal. Delicados anjos de vidro ou massa emolduravam os mostrurios, as confeitarias estavam repletas de tortas e doces natalinos.
Os europeus tradicionais no tinham o costume de adornar tudo com metros sem fim de lmpadas, como os americanos. Ao invs disso, faziam guirlandas de cascas de laranja e folhas. O aroma de especiarias e a decorao original faziam com que a cidade parecesse medieval.
Jacob tentava manter o bom humor, apesar de uma voz interior permanecer alertando-o para o fato de que Allison no costumava desaparecer sem deixar instrues precisas de onde fora e onde poderia ser encontrada em caso de necessidade. Tentou pensar que aquele Natal seria maravilhoso. Tinha mulher e filho para compartilhar com ele as alegrias das festas de final de ano.
As pessoas sorriam e saudavam-no com acenos e palavras carinhosas. Em seu prprio pas no precisava de guarda-cos-tas. O povo estava acostumado a v-lo percorrer as ruas da cidade, desde que era um menino bem pequeno, e no era nada estranho ver o prncipe dar um passeio a p.
At o reprter do pequeno jornal da cidade pediu-lhe permisso para tirar uma foto, pois em Elbia, se no pedisse licena para o prncipe, seria considerado rude.
Jacob procurou nas ruas mais elegantes, at chegar a uma fonte antiga junto a cafs que comeavam a ficar lotados para a hora do almoo. Foi ento que a viu, saindo de uma porta vermelha.
Correu em seu encalo, mas assim que se aproximou, sentiu que havia algo errado. Allison retribuiu, sem entusiasmo, o beijo que recebeu, os olhos baixos e vermelhos.
	O que houve, Alli?
	Nada.
Jacob relanceou o olhar para a porta vermelha de onde a vira sair. Era uma agncia de viagens. Sentiu os msculos da nuca enrijecerem.
	Planeja viajar?  Esperou uma resposta que no veio.  Em breve poderemos ir a qualquer lugar que deseje. Se no gosta de Elbia, poderemos viver parte do ano na Itlia... Frana... at nos Estados Unidos.  Riu, nervoso.  Sou flexvel, meu bem.
	No adianta, Jacob. Isso no vai dar certo...
	O que quer dizer? No est feliz no palcio? Todos j gostam de voc por l!
Allison ficou muito plida.
	Nem todos...
Jacob parou de andar e segurou-a pelos ombros.
	Que quer dizer? Algum a ofendeu?
	Frederick me odeia.
	 um tolo antiquado e pomposo. Se a ofendeu, irei chamar sua ateno. No tem o direito de...
	Conheci seu pai algumas horas atrs  retrucou Allison com calma, suspirando, aliviada.  Entrei na biblioteca para trabalhar e encontrei-os... o rei e Frederick.
	O que meu pai disse?
	As palavras no importam, Jacob. O que interessa  que ele tem razo.
	Sobre o qu?!
Jacob ignorava os transeuntes que passavam e os encaravam sem receio.
	Estou... atrapalhando  disse Allison com humildade.
	Foi isso que meu pai disse?
	Em sntese, sim. E est certo.  Allison afastou as lgrimas com a palma da mo.  Estamos fingindo que tudo dar certo quando sabemos que  impossvel. O que voc deseja, na verdade,  ter-me como amante, e tomar uma nobre como rainha. Mas no posso...
	Casei-me com voc! Esqueceu?!
	Jacob, o baile... a condessa de Veneza... Concordou com um noivado?
O prncipe mal conseguia acreditar no que ouvia. Que mentiras aquelas duas velhas hienas, o rei e Frederick, haviam contado  Alli?
	No  respondeu com firmeza.  Concordei em conhecer a condessa porque seria muito rude retirar uma proposta poltica de casamento sem me explicar a ela, pessoalmente.
	Ento, pediu-a em casamento?
	No. Frederick fez a proposta em meu nome, sem minha permisso. Seguia ordens de meu pai.
	Terminar o compromisso com a condessa no muda as coisas.
	Tem razo, mas tenho procurado por uma soluo que me dar o poder de fazer o que quiser da vida. Thomas me incentivou.  Tomou Allison nos braos.  Tudo depende do que acontecer na noite do baile de Natal. Quero que me prometa que no fugir com Cray antes de ver os resultados.
	Mas, Jacob...
	Quieta! Deixe-me cuidar da poltica.  o que sei fazer melhor.  Sorriu com malcia.  Bem., acho que tambm tenho outros talentos...

CAPITULO XI

O maior medo de Allison era que a atitude obstinada de Jacob pusesse tudo a perder. Se arriscasse o trono por sua causa, seria rejeitado pelo povo de Elbia e exilado do amado pas. Fora Thomas quem lhe dissera isso, quando perguntara. Afinal, os cidados de Elbia estavam inquietos, sabendo que o casamento do prncipe herdeiro com uma plebeia era um grande problema.
Seria um preo muito alto a pagar, portanto nada mais justo que Jacob estivesse ressentido. A seguir, viria o dio e a morte do amor. Allison no suportaria perd-lo daquele modo. Seria melhor partir com Cray enquanto ainda compartilhavam o afeto um pelo outro, e viver das lembranas.
Mas prometera a Jacob que ficaria at depois do Natal, e manteria a promessa, amando-o de todas as maneiras possveis, at o dia em que devessem enfrentar a separao.
Entrementes, havia muito com que se manter ocupada. Ajudara a supervisionar a decorao natalina do palcio. Centenas de velas tinham sido colocadas em castiais de ouro e prata em todos os cmodos, guirlandas haviam sido expostas em todos os parapeitos e balces.
Jacob lembrara-se do nome da costureira, Helena, que sempre fizera as roupas de sua me que a preferira a qualquer outro profissional da Europa. Fez com que viesse ao palcio a fim de que Allison pudesse encomendar um vestido para o baile de Natal.
Depois da escolha do tecido e da realizao de trs provas, Helena apresentou a obra concluda, e Allison soltou uma exclamao de puro prazer. Desde o baile de formatura, jamais usara um vestido longo e, mesmo naquela ocasio, fora uma roupa comprada em liquidao, modelo antiquado e faltando trs botes que Allison precisara repor.
Mas... o vestido que Helena fizera, exclusivo, mais parecia uma obra de arte. O tecido bege ajeitava-se aos contornos do corpo enquanto a costureira passava-o sobre a cabea de Allison. A saia acinturada caa em dobras graciosas at o cho. O corpete assentava com perfeio, erguendo o busto e revelando-o atravs do decote redondo, bordado  mo, com prolas e contas de cristal. Os ombros ficavam  mostra, fazendo sobressair a pele branca.
Allison sentia-se como uma princesa de contos de fada e quase chorou de emoo, parada em frente ao enorme espelho da sute que dividia com Jacob.
	 magnfico  murmurou.  No sei como agradec-la por ter feito este vestido em to pouco tempo. O baile ser hoje!
	Sinto-me honrada  respondeu a costureira.  Seja l o que precisar em matria de roupas, procure-me. Farei especialmente para a senhora, minha princesa.
Princesa...
Aquele tratamento lhe era dirigido diversas vezes ao dia, enquanto se agitava pelo palcio, trabalhava na biblioteca ou sentava-se  longa mesa de jantar com Jacob e Thomas, s vezes at com a presena do rei que nunca mais lhe dirigira a palavra.
Thomas sempre a chamava de princesa, assim como a criadagem. O ttulo comeava a parecer menos formal e mais carinhoso. Allison j tinha conscincia de quanto sentiria falta de tudo aquilo, do trabalho que seria deixado pela metade, das obras de arte e do mobilirio que a circundavam. Acima de tudo, sentiria falta de Jacob.
A ideia de que seria inevitvel deix-lo a mantinha inconsolvel, mas pretendia voltar a Connecticut logo depois do Natal.
Aps receber o vestido, foi ao berrio.
	Como est meu menino hoje?
Gretchen sorriu, enlevada.
	Cray  to esperto! J sabe apontar para o nariz, a boca e os cabelos... no , querido?
O garotinho riu, erguendo a mo at o nariz, errando, e quase enfiando o dedo rechonchudo no olho.
Allison olhou para o filho que balbuciava em seu vocabulrio prprio.
	Onde aprendeu isso, meu amor?
	Comigo  respondeu Jacob, a suas costas.
Allison voltou-se, o corao acelerado. Durante quase toda aquela semana mal haviam conversado, ambos muito ocupados. Jacob continuou:
	Costumo ensin-lo quando venho brincar aqui.
	O prncipe vem todas as manhs  explicou Gretchen  e todas as tardes, quando a senhora est no trabalho. L para Cray e toma conta dele enquanto vou preparar-lhe o almoo e o jantar.
Allison sentiu uma pontada no peito. Estivera pensando na falta que sentiria de Jacob e esquecera da dor que causaria com a separao entre pai e filho. A fim de disfarar a mgoa, anunciou:
	O vestido ficou pronto.
Jacob sorriu-lhe enquanto saam do berrio, deixando Gretchen a brincar com Cray.
 Posso ter um desfile particular?
Apesar da tristeza que sentia, Allison no pde resistir ao charme. Enlaou o pescoo do marido e beijou-o nos lbios, murmurando:
	Acho que no...
	Por qu?
	Se comear a tirar a roupa, voc no me deixar provar o vestido, deixar?
	Receio que tenha razo. Mas tenho uma novidade: deixei a agenda livre para hoje  tarde.
	 mesmo? E o que Vossa Alteza tem em mente?
	Bem, pensei que, se Gretchen levasse Cray a dar um passeio, poderia ter algumas horas roubadas a ss com minha esposa, antes de nos aprontarmos para o baile.
	E o que faramos durante essas horas?
Jacob tomou-a nos braos.
	Pensaremos em alguma coisa...
Allison tomou apenas uma sopa de legumes antes de se vestir para o baile. Toneladas de comida seriam servidas, segundo informaes do mestre-cuca esbaforido que empregara mais trinta ajudantes para a ocasio. Mas os aperitivos s comeariam a ser oferecidos a partir das nove horas, e poderia sentir fome at l. Ainda no se ajustara ao costume de jantar tarde, e preferia comer s seis horas.
Primeiro colocou Cray para dormir e depois comeou a preparar-se. Dispensara a ajuda das criadas, pois desejava vestir-se sozinha e em paz. Gretchen entrou quando acabava de se maquilar.
	Oh, senhora!  exclamou a jovem.  Jamais vi uma dama to linda na corte!
	E a condessa di Taranto no  bonita?
As palavras saram sem que Allison conseguisse det-las. Ouvira os criados sussurrando aquele nome como algo proibido e presumira tratar-se da mulher que pretendia tirar-lhe Jacob.
Gretchen enrubesceu e abaixou o olhar.
	Esteve aqui para o baile do ano passado, junto com vrias outras que desejavam casar com o prncipe.
	E?
	Ora! No tem nada de especial! Seu corpo  moldado com muito silicone e vrias operaes plsticas.
Allison prorrompeu em uma gargalhada, por um momento esquecendo o medo.
	Voc  muito boa para mim, Gretchen!
Jacob dissera-lhe que iria vestir-se no escritrio, pois tinha muito a fazer. Parecera tenso, a ltima vez que o vira, como se tambm duvidasse dos prprios planos misteriosos que tinha em mente.
As oito horas em ponto, ouviu-se uma batida  porta da sute, e Allison sentiu um n na garganta ao ver Jacob trajando um smoking preto, impecvel. Uma faixa carmim estava trespassada no ombro e da lapela pendiam medalhas de ouro. Os cabelos negros brilhavam, assim como os olhos, tomados por uma chama que nunca vira antes. Seria de excitao ou de nervosismo?
	Est to bonito! Um homem no tem o direito de ser assim deslumbrante!
Jacob riu.
	Lisonjeadora!  Mirou-a da cabea aos ps.  Deus do cu! Voc, sim, est maravilhosa! Cada homem no salo ir brigar para conseguir uma dana!
	Foi bom Thomas ter-me dado algumas lies. Espero no pisar em muitos ps.
	Vai se sair muito bem.
Jacob ofereceu-lhe o brao, e Allison sentiu-se uma princesa de verdade. Ela no permitiria que nada, naquela noite, estragasse aquela sensao.
Jacob relanceou o olhar pelo salo de baile repleto de convidados. L estava AUi valsando com um rico industrial vie-nense. Viu o marido por sobre o ombro do par, e piscou o olho. Jacob estufou o peito, orgulhoso. No importava quem a tirasse para danar, Allison sabia comportar-se com elegncia. Encantara nobres de meia-idade, jovens duques e plebeus, do mesmo modo. As mulheres pareciam ador-la tanto quanto os homens.
A grande maioria dos moradores adultos de Elbia havia comparecido ao baile daquela noite, e a princesa tratava a todos do mesmo modo, e todos pareciam retribuir o respeito.
Jacob olhou mais uma vez para o amplo salo e viu o que temia: o pai e Frederick sentados na mesa principal com a condessa di Taranto e seus familiares. Frederick olhou-o de modo significativo, pedindo que se aproximasse, enquanto a condessa endereava-lhe um sorriso convidativo.
Jacob sentiu um n na garganta e, apressado, procurou por Thomas no salo. Prometera que estaria l quela hora, mas no o vira desde que se haviam separado no escritrio. Aonde estaria o homem?
Uma voz baixa falou-lhe ao lado:
	Desculpe o atraso, senhor.
Jacob segurou o amigo pelo brao.
	Ainda bem, Thomas! No queria comear sem voc. Trouxe?
Thomas acenou de modo afirmativo, cofiando a barba.
	Sim, meu senhor. Espero que seja o suficiente.
	Se no for  disse Jacob, os lbios semicerrados e forando um sorriso para os convidados do pai , estaremos todos perdidos.
	 verdade, senhor. Deseja Allison... quero dizer, a princesa, includa na discusso?
	 melhor. No quero que interprete mal meu encontro com a condessa. J est prestes a voltar para os Estados Unidos...
No posso culpar a pobre moa. Vou procur-la, senhor.
Jacob respirou fundo, arrumou as mangas do palet e avanou pelo salo.
A orquestra tocava uma valsa cujos acordes subiam em um ritmo que acelerava as emoes do prncipe,  medida que distribua sorrisos e cumprimentos de Natal aos convidados por quem passava. Mas o olhar estava fixo no pai, enquanto se concentrava nas palavras que iriam operar maravilhas nos prximos minutos. Palavras que justificariam e selariam seu futuro, da famlia e do pas.
O olhar do velho rei ficou preocupado ao cruzar-se com o de Jacob. Se o filho recusasse, naquela noite, casar-se com a condessa e evitasse suas obrigaes, no haveria herdeiro. Na idade em que estava no poderia ter outro filho ou filha. A liderana do pas iria ser disputada por bares, duques e outros nobres, que possuam rvores genealgicas de quase quinhentos anos, antes mesmo do reinado dos von Austerand.
Jacob alcanou a mesa do pai e o cumprimentou com gesto seco.
 Majestade... sir Frederick... condessa, est linda como sempre.
A jovem ergueu o queixo, fazendo reluzir uma enorme esmeralda que trazia ao pescoo. Era um gesto calculado que dizia: "tambm sou rica e bem-nascida, a mulher que precisa a seu lado."
Jacob cumprimentou os pais da condessa e, com o canto do olho, viu Thomas aproximando-se e trazendo Allison. Sussurrava-lhe ao ouvido e batia-lhe de leve na mo, de modo confortador. Jacob sabia que Alli devia estar apavorada, sem ter ideia do que o marido pretendia fazer. Mal suspeitava que ele tambm estava tremendo de medo.
Jacob estendeu a mo para Allison que a tomou, hesitante, cada nervo do corpo retesado e ansiosa para sair correndo do salo de baile e escapar daquela gente.
Sabia que o rei e o conselheiro a odiavam e fariam o que fosse preciso para afast-la de Jacob. Por outro lado, era bvio que tambm a condessa e seus pais a julgavam um estorvo. O fato de a bela moa, coberta de jias, olh-la com tolerante curiosidade, aumentava o pnico que sentia naquele instante.
A condessa parecia estar muito segura do fato de ser a prxima noiva do prncipe de Elbia.
Sem saber de onde tirava foras, Allison manteve a cabea erguida e sorriu, de modo mecnico, para o grupo.
Agora que estamos todos reunidos  comeou Jacob  revelarei meus planos o mais rpido possvel.
Frederick levantou-se com tanto mpeto que fez estremecer a mesa.
	Alteza, seria melhor que conferencissemos a ss, se tem algo importante a anunciar esta noite.
	No  retrucou Jacob com firmeza.  J conferenciamos demais nos ltimos anos. No pense que no apreciei seus conselhos, mas agora cabe a mim decidir o que ser feito de minha vida.
	Jacob!  O rei fitou-o com um olhar furioso.  No seja precipitado!
	Prometo que, pela primeira vez na vida, no o serei.
Voltou-se para Allison que temia desmaiar a qualquer instante.
	Minha querida esposa, prometi-lhe que descobriria um modo de mant-la a meu lado e descobri.
A condessa engasgou, os pais comearam a falar alto em italiano, e Frederick pareceu abatido.
	No, Jacob!  Foi a vez de Allison interferir.  No deve dar as costas a seu povo!
	Mas no tenho a menor inteno de fazer isso.
O grupo silenciou, ao mesmo tempo em que a orquestra calou seus instrumentos. Para Allison, parecia que uma eternidade se passava.
	Assumirei o trono de meu pas no dia primeiro de janeiro do prximo ano, como pede a tradio. E farei isso com minha esposa, Allison Collins von Austerand, a meu lado.
	Impossvel!  gritou o rei.
Os convidados mais prximos  mesa olharam para a cena e comearam a se afastar. Sussurros principiaram a se espalhar pelo salo, com a rapidez do fogo em capim seco, a respeito da discrdia em famlia.
Algum sugeriu que a orquestra comeasse a tocar uma msica alegre, e bem alto.
	No  impossvel, meu pai e senhor  retrucou Jacob com calma.
Voltou-se para Thomas, estendendo a mo para segurar um livro muito antigo.
	Este  um dirio mantido pelo lorde chanceler de Elbia de 1535 a 1551. Registra todos os decretos legais da corte durante aqueles anos. Como sabe, meu pai, h dois modos de promulgar uma lei: por escrito, como constituio, ou atravs de precedente. Se uma prtica foi considerada legal no passado,  legal no presente.
Allison apertou o brao de Jacob. No sabia aonde levaria aquela explicao, mas algo lhe dizia que realmente havia esperana.
	 verdade  concordou Frederick , mas no sei como isso..
	Ouam-me  interrompeu Jacob com um tom aborrecido que fez o velho conselheiro calar-se de imediato.  Este dirio  disse, erguendo o manuscrito encadernado para o grupo   um livro de leis e procedimentos da corte que estabelece um precedente no reinado de Henrik von Austerand, o terceiro de nossa linhagem a subir ao trono de Elbia, e que desposou uma moa que trabalhava na cozinha do palcio!
Um gemido horrorizado percorreu a mesa, mas Allison sentiu alvio. Agora entendia as intenes de Jacob.
	Henrik escolheu uma esposa plebeia, mas, antes de assumir o casamento de modo formal, apresentou a questo ao povo.
	Houve um voto popular  explicou Thomas, tomando o livro de Jacob, abrindo em uma pgina marcada, e estendendo-o sobre a mesa, diante do rei, que afastou o volume com desdm.
Frederick debruou-se sobre o volume e comeou a ler, os lbios movendo-se depressa enquanto traduzia o latim, e Thomas aproveitou para continuar a explicao.
	O povo de Elbia conhecia a mulher que Henrik escolhera. Era digna e respeitada por todos, apesar de ser uma criada. Nos dois anos em que fora amante de Henrik, mantivera-se a seu lado durante uma terrvel guerra, demonstrara generosidade e compaixo com muitos, e assim se tornara querida.
De modo significativo, Thomas olhou para Allison que corou, balanando a cabea, atnita. Jacob e Thomas deveriam ter vasculhado cada canto do palcio e pesquisado centenas de livros antigos, at encontrarem a brecha que procuravam.
Foi a vez de Jacob continuar:
	Os sditos do rei, tanto nobres quanto plebeus, aprovaram a escolha da jovem. Ento, sem rivais que pretendessem tomar-lhe o ttulo de rainha, ela tornou-se a esposa de Henrik por toda a vida e deu-lhe trs filhos, o primognito assumindo, anos depois, o trono do pai.
O rei Karl afastou o olhar, focalizando-o nos convidados que danavam.
	Mas  comeou Frederick  aquilo foi um acaso... uma ndoa na tradio!
	Porm, foi legal  retrucou Jacob, apertando a mo da esposa.
Allison sorriu para o marido, desejando que lhe tivesse confidenciado o plano antes, mas percebendo logo que Jacob tambm estivera com medo que no desse certo.
	Um bom advogado  continuou o prncipe com serenidade  poder abrir um caso contra o exemplo do casamento de Henrik como precedente para a atual situao. Poder convencer o gabinete e o parlamento, mas advirto-o para tomar cuidado, Frederick. Se refutar a legalidade dos herdeiros do rei Henrik, nascidos de uma mulher plebeia, destruir a validade de os von Austerand estarem no trono de Elbia desde o sculo dezesseis!
	Isso tudo  ridculo!
Assim falando, Frederick fechou o livro com um murro, fazendo-o voar para o outro lado da mesa.
	Silncio!
Todos voltaram-se para o rei de Elbia.
Karl suspirou de modo profundo, erguendo o olhar para o filho.
	Tem razo. Negar-lhe o direito a um plebiscito popular poderia destruir nossa dinastia.  Afundou na cadeira, parecendo muito cansado.
Ningum disse uma palavra, e Karl voltou-se para Allison.
	Deve ser uma mulher muito especial, minha cara, para ter causado tantos problemas em minha famlia. Se o povo aprov-la, espero que fique ao lado de meu filho com dignidade e coragem. Porm, se os cidados de Elbia a recusarem, rogo que v logo embora de modo que possamos pr um fim a essa histria.  Afastou a cadeira.  E que Deus nos ajude, de qualquer maneira.
Os dias seguintes foram to ocupados que Allison mal tinha tempo de respirar. Ela e Jacob quase no comiam e pouco descansavam, entre as reunies com grupos cvicos, comerciantes e trabalhadores de Elbia.
O voto popular estava programado para trinta dias aps o Natal o que lhes dava pouco tempo para se encontrarem com o maior nmero possvel de cidados. Allison comparava a campanha com a de Presidente da Repblica dos Estados Unidos.
Porm, por mais cansativa que fosse a programao, estava adorando conhecer novas pessoas e conversar com o povo sobre seus problemas. Entendia perfeitamente como era difcil ter de sustentar uma famlia, obter assistncia mdica decente e proteger o pas para as futuras geraes.
Quase todos os problemas que os cidados de Elbia desejavam discutir com ela e Jacob eram-lhe bastante familiares. No lutara para se sustentar sozinha com Cray? No se preocupara em ter dinheiro para pagar um bom mdico quando o filho adoecia? E a sobrevivncia de Elbia havia se tornado to importante para Allison quanto a de seu prprio pas.
	Sabem que  sincera e coerente quando oferece conselhos  dissera Jacob, beijando-a de leve quando se deitaram na cama, ao final da semana atarefada.  Ficaro a seu lado...
ao nosso lado quando forem s urnas.
	Espero que tenha razo  suspirou Allison.  Preocupo-me tanto com todos... Ficaria magoada se no retribussem minha afeio.
Jacob apenas sorriu, abraando-a.
O dia do plebiscito chegou, e Allison no conseguiu comer nada no caf da manh. Ao meio-dia, chegou a notcia ao castelo de que uma grande parte do povo j votara, de modo quase unnime, a favor de Allison tornar-se rainha e Jacob assumir o trono.
Embora nem o rei nem Frederick houvessem feito uma campanha aberta contra ela, Jacob sabia que haviam deixado correr a notcia de que o monarca no aprovava a nora. Entretanto,  medida que as horas passavam e os votos eram apurados, ficou claro que poucos eram contra Allison Collins.
Quando a apurao terminou, o povo de Elbia estava ao lado do prncipe e de sua esposa.
Quando Jacob veio trazer a boa-nova, viu-a levantar-se de supeto e soltar um grito de alegria.
	Oh, Jacob! Jamais existiu mulher mais feliz do que eu! Apenas espero corresponder s expectativas.
Abraaram-se, e Jacob murmurou:
	J corresponde as minhas expectativas, h muito tempo. Sei que trar grande alegria e orgulho a meu povo, por muitos anos. Amo-a, Alli. Amo nosso filho, somos uma verdadeira famlia. 
E, mais tarde, naquela noite, enquanto Cray dormia no bero, Allison aninhou-se nos braos de seu prncipe que seria rei em poucos dias, e amaram-se com a paixo digna do casal que iria reinar em um pas de contos de fadas.
FIM
